Apoio Mútuo

Mudanças sérias precisam acontecer

Categoria: Dicas de saúde

Aspectos dos femininos em isolamento físico – anti-poder

O assunto não é poder feminino. Nem tampouco a divisão social do trabalho entre homens e mulheres – a mais antiga que existe. Não é sobre anti-macho ou a disputa de poderes entre homens e mulheres. Aliás, estamos aqui para falar do anti-poder no feminismo e como ele combate o machismo. Estamos aqui para falar de como esse anti-poder contribui para minar os estigmas femininos e masculinos no sentido de que nossos rótulos capitalistas e liberais são colocados em xeque.

Estar em quarentena e ser mulher – claro que em ambientes não solitários, em condições que envolvem obrigações para com outros e para com si mesma, mulheres responsáveis e responsabilizadas – envolve a super atenção aos estigmas femininos de produtividade e servidão relacionadas ao gênero: permanecer bela, atraente, ser multifuncional (casa, comida, trabalho, criança e sexy) e estar disponível aos interesses masculinos, sejam eles quais forem. Comportamentos opressivos médios apresentados aqui não são os únicos presentes: há as exacerbações. Super-controles, possessividades, abusos sexuais, físicos e psicológicos são crescentes em tempos de confinamento.

Lembrem-se: a situação de isolamento físico social aumenta a ansiedade em todos os presentes, e cada um tem sua válvula de escape. Rotinas que outrora eram pontuais devido a correria do dia-a-dia, nesta situação, são a máxima, a preponderante. Aquilo que parecia pequeno e era contornado pela mulher por ela entender o machismo de seu companheiro de confinamento, com a convivência integral passa a ser maior, mais forte e mais opressor/explorador.

Há meios – pelo anti-poder – de contornar as situações do comportamento opressivo/explorador médio (ainda bem), e quiçá combater o machismo nas nossas relações. Para os casos de excesso há toda uma rede de ajuda mútua para-estatal e estatal que podem auxiliar você a sair dessa (toda forma de violência doméstica deve ser impelida a parar!). Quando falamos em anti-poder falamos de relações que fogem à máxima dos manuais de relacionamentos onde há qualquer forma de dominação. Não!! Relacionamentos não são baseados em palavras finais, ou no controle da situação. Pare de trazer as dinâmicas de poder do mundo capitalista para seus relacionamentos interpessoais.

A divisão social do trabalho e da educação entre gêneros é a primeira divisão da história da humanidade, o que não significa que sempre seguiu o molde de hoje. Divisões de trabalho podem ser fluidas, cooperativas, associativas e devem ser horizontais. Você e seus companheiros de isolamento não precisam de última palavra ou de uma lista de obrigações suas e deles, precisam de um termo comum que não faça de você uma mistura de Rosie (robô dos Jetsons), Mia Kalifa, Martha Stewart e supermãe. Todas estas funções e atividades podem e devem ser compartilhadas – inclusive o prazer mútuo. Aí vão algumas ideias de formas de fazer isso:

  • Conversem muito, distribuam as coisas conforme a dinâmica de cada um: cada um tem seu ritmo, seu padrão mínimo de higiene e de organização, cheguem ao ponto mais próximo do consenso, mesmo que ele seja transitório. A comunicação não violenta entre vocês é um bom começo;
  • Troquem afeto com as palavras e com gestos: afeto nos ajuda a combater a ansiedade, nos passa segurança. Sejam afetuosos horizontalmente (lembre-se do anti-poder), beijos, abraços, carinhos e tudo que vocês fariam em bons momentos. Fortalece os vínculos de confiança, tolerância e senso de companheirismo essenciais para sobrevivermos bem neste período;
  • Foquem nas discussões, debates com efeitos positivos: conversar sobre o que aconteceu naquela festa de 2008 não vai ajudar vocês a manter uma relação de anti-poder. Não estamos no momento de que qualquer um possa cobrar do outro – especialmente de nós mulheres – sobre comportamentos fora do confinamento. É o momento de ter conversas que sejam objetivas sobre o agora, divertidas e que não lhe atribuam mais obrigações. Diga não aos debates que trazem multitarefas. A vida do confinamento já é intensa o suficiente para você se sentir sufocada pelas obrigações coletivas;
  • Falem de sentimentos de hoje: falar de tristeza, alegria, medo, ansiedade, saudades e todos os sentimentos sobre o agora nos ajuda a lidar com eles. Ouvir nos ajuda a compreender o outro: divida na terapia, com seu bando e com seus companheiros de quarentena (estimule que eles também façam). Não seja o ouvido, seja a voz. Isso os ajuda a ter noção do que é ser você nesse tempo e em como te ajudar (caso você peça/precise);
  • Não espere proatividade de todos: somos criadas para sermos proativas e multifocais. Somos criadas para sermos ‘workaholics’ em todos os ambientes. Se não está rolando fazer algo com o que se comprometeu, peça ajuda. Explique suas dificuldades. Isso não é sucumbir à dominação, é dialogar. Muitas vezes os homens – heteros, homos, bis, cis, trans – não têm o ‘treinamento’ social que temos desde a infância e estão dispostos a ajudar mas não sabem como, o que os faz parecer inertes ou intrometidos com o que estamos fazendo. Pedir ajuda nunca é demais;
  • Tenha momentos e espaços solitários todos os dias: ficar só ajuda a compreender o que está acontecendo com você. Tome um banho demorado, uma brincadeira que te agrada, um livro, uma série só sua, uma dança no espelho, yoga, meditação… O que for confortável e prazeroso para você (Bingo do auto cuidado). Sentir prazer estando só ajuda a lidar com o coletivo, estar junto de alguém é uma escolha (sempre) não uma obrigação, isso é anti-poder;
  • Dividam a vida, mas não fabriquem novas. Momentos de prazer, lazer, sexo e afeto são excelentes para esse período, mas não precisam resultar em compulsões ou gestações. Compulsões devem ser tratadas em coletivo, o sexo não é um escape para a ansiedade. O resultado do sexo pode ser uma gestação, e convenhamos ninguém sabe o que será o pós Covid-19, o acompanhamento de uma gestação neste momento é arriscado (rompe com o isolamento) e não temos ideia de que mundo o rebento receberá para viver. Fora os hormônios! A gestação aguça sensações boas e ruins e não temos escapes externos em isolamento social. Cuide-se. Preserve sua saúde mental e física. Se há um planejamento de gestação com seu companheiro, aguardar o fim da quarentena é uma proposta para ser discutida. A saúde coletiva é o centro das nossas atenções agora, e se tornar grupo de risco para uma série de questões não é nossa melhor opção.

Se há uma crescente na relação de poder dentro de casa procure ajuda. Seja a forma de poder sob você, criança ou idoso. A violência doméstica explodiu neste período de confinamento e alguns elementos externos (como álcool), solidão (fale com seu bando), abstinências (consumo de psicoativos na quarentena ) tiram a sanidade e estabilidade mental e emocional, toda ajuda é bem vinda para seu sofrimento, crise ou angústia. Não se feche, somos um bando, peça ajuda e preservem suas vidas. 🙂

Links de ajuda disponíveis para todos os tipos de violência doméstica:

tocomelas.mapadoacolhimento.org

Acolhimentos estatais:

[Dicas de Saúde] Como prevenir a COVID-19 com pouca água e pouco dinheiro! (Fórum de Mulheres de Pernambuco, Recife, PE)

https://www.facebook.com/forumdemulherespe/

[Dicas de Saúde] Consumo de substâncias psicoativas durante a quarentena

As relações entre humanidade e substâncias psicoativas, tanto por questões químicas quanto psicológicas podem ser um entrave para a manutenção do isolamento físico, por isso se usa drogas regularmente, estas podem ser uma fonte de satisfação muito importante para você, mas, como sempre, existem riscos e danos associados a esta prática. É comum que em situações de estresse tua vontade de consumir aumente, por isto, é importante que em dias de isolamento social, solidão e angústia você observe o seguinte:

  • Busque diferentes opções para acalmar tua ansiedade, aproveite o tempo para ler um bom livro, escutar tuas músicas favoritas, cozinhar, fazer alguma atividade pendente, organizar teus espaços, tomar chás, etc.;
  • Organize teu tempo e as tarefas que consegue cumprir, não estabeleça objetivos muito grandes para não gerar frustração;
  • Mantenha tua rotina de consumo, não aumente tuas doses;
  • Divida as substâncias em pequenas doses, isto te permitirá identificar facilmente quando estiver consumindo mais do que o usual. Tomar chá de folha de coca (se possível) ou outras infusões psicoativas que podem te ajudar a manter-se e estar ativo sem ansiedade e sem necessariamente aumentar as doses;
  • Não exceda o consumo de bebidas como café ou chá preto/verde. Procure evitar bebidas energéticas (estimulantes), pois elas podem aumentar teu nível de ansiedade;
  • Se tem gripe ou sintomas relacionados, o melhor é que comunique o serviço de saúde e se mantenha em quarentena sem dividir espaços com amigos ou familiares. Se os sintomas se agravarem procure ajuda médica;
  • Se é usuário de substâncias psicoativas, tem HIV e se encontra em tratamento retroviral, aconselhamos a não consumir todos os dias, deve ter precaução com substâncias como cocaína e MDMA. O MDMA gera redução das respostas imunológicas do organismo comprometendo o tratamento com o coquetel retroviral;
  • Se tiver abastecido de substâncias psicoativas, não vá com com tudo nos primeiros dias, racione as substâncias. Lembre que os vendedores também estão em isolamento social. Não se arrisque comprando de desconhecidos;
  • No caso de maconha, não consuma cigarros que venham prontos. Se compra assim, te recomendamos desmontá-los e refazê-los com papel novo;
  • Procure não fumar com a casa toda fechada. Não fume o dia inteiro. Dosifica a quantidade;
  • Se é consumidor de heroína ou opioides tente abastecer-se de metadona por 2 semanas para a abstinência;
  • Se consome habitualmente cocaína e outros estimulantes (anfetaminas, ex.) tenha em conta que o consumo destas substâncias podem aumentar tua ansiedade, e mais ansiedade em isolamento social pode te levar à quadros agudos de complicações psicológicas como depressão, pânico, TOC e outros transtornos;
  • Não beba álcool todos os dias, o álcool deprime o Sistema Nervoso, aumentando a sensação de solidão;
  • Não faça festas em casa. Não vá em festas ou outros tipos de aglomerações, procure outras formas de conviver com as pessoas queridas (fale com seu bando);
  • Assegure-se de ter camisinhas à mão;
  • Não consuma diante de crianças;
  • Cada vez que quiser consumir pensa de 1 a 10 quanto necessita? Pergunte-se se existe outra forma de acalmar tua ansiedade. Poderá evitar o consumo ou o aumento do consumo;
  • Pratique yoga, meditação, etc.. Faça alguma atividade física em casa;
  • Mantenha uma dieta rica em verduras, frutas, vitamina C e proteínas;
  • Evite o consumo excessivo de açúcar, sua capacidade estimulante e viciante pode aumentar a ansiedade mais que o café e chá preto/verde, não alimente mais a ansiedade;
  • Lembre-se de ficar em casa se puder;
  • Se tiver ido à festas e consumido demais antes da pandemia, o isolamento pode ser uma oportunidade para reduzir o consumo, dar um respiro ao corpo.

Fazemos um chamado à que se solidarize com as pessoas que não tem lugar onde refugiar-se. Se puder, doe alimento e abrigo. Ajude-os a encontrar um lugar de passagem ou centro de ajuda.

Texto adaptado de:

http://www.echelecabeza.com/consumo-de-sustancias-psicoactivas-en-cuarentena

[Dicas de Saúde] A infância no isolamento

Com a chegada da Covid-19, as primeiras medidas de isolamento social do Estado foram direcionadas aos idosos e crianças. Como uma doença nova, sem que se soubesse muito a seu respeito, o Novo Coronavírus traz para dentro de casa as crianças que passavam, ao menos, metade de seus dias na escola, convivendo com professoras, crianças e ensino sistematizado.

A Covid-19 balançou – para todas as camadas sociais – a realidade de convivência familiar. Trânsito de pequenxs com pais separados, mães solteiras que se viram, famílias que ficaram sem ajudantes, avós que cuidam de netos, pais que cuidam de suas crianças e comunidades que criam suas pequenas coletivamente. O isolamento aproximou – não, colou! – a realidade da infância e a realidade dos adultos.

Sem a escola formal – com horários, prazos e a professora para orientar – o sentimento de férias para elas passou a ser uma constante, muitas não entendem bem o que acontece, e até nem tem idade para tal; outras aproveitam o tempo para formas de lazer que vêm da vida antes da pandemia.

No começo das medidas de auto isolamento os pediatras, pedagogos e psicólogos reforçavam aos tutores “paciência com as crianças! ”. Olhavam pelos pais ausentes – pela razão que fosse – que não tinham o hábito de conviver com o ritmo da vida na infância.

Não sabemos habitar nossas crianças.

E assim como o isolamento social tem mostrado para muitos que não sabemos habitar nossas casas (pois, até então as casas eram uma espécie de estacionamento para pessoas), também tem mostrado que não sabemos habitar nossas crianças.

Algumas dicas, de profissionais, sugestões de atividades para ocupá-las passou a inundar as redes. Diante de todas elas, alguns cuidados são importantes:

  • Mantenha sua pequena informada sobre o que acontece. Explique as razões – na linguagem mais adequada, com alegorias, histórias, ciência e o que mais for possível (a imaginação de vocês é o limite) – a falta de prazo e tente tirar todas as dúvidas possíveis para não alimentar a ansiedade delas;
  • Mas, lembre-se, crianças muito pequenas não conseguirão entender o que está acontecendo e ao tentar explicar você poderá estar inundando ela com ansiedades desnecessárias;
  • Não desconte sua ansiedade nas crianças! Seja quem você é alimentando o vínculo com elas, trocando afetos, experiências e atividades em comum. Procure ajudas em casa, fora dela, e profissional se for necessária. Lembre-se: elas estão tão confinadas quanto você, lidar juntos é a melhor forma de passar por isso.
  • Crianças também tem seus bandos! Pense em usar as mesmas ferramentas que você escolheu para você – (ligue pro teu bando) – se organize com outros tutores e deixem que elas interajam. Conviver com as outras crianças, amigos, colegas, festinhas de aniversário virtuais e encontros são muito importantes para o vínculo afetivo e social em qualquer momento da vida.
  • Rotinas são bem-vindas. Organizar tempo de estudo, brincadeira, tarefas, lazer coletivo, telas – videogames, televisão, internet – e de convívio lúdico ajudam com que as crianças tenham mais noção do tempo, dos dias, das coisas. A rotina delas foi interrompida abruptamente como a sua. Os estudos – com a ajuda da escola ou de sistemas on-line, atividades feitas por você, amigos seus ou parentes – mantém a ideia de que aprender é importante, mesmo que (principalmente) fora de um sistema educacional institucionalizado. A curiosidade faz parte da infância, bem como a experimentação, abuse disso nas atividades e mantenha os aprendizados das crianças 🙂

Aproveitemos o momento para repensarmos o modelo de educação que vivemos. Era isto que realmente queríamos para nossas crianças? Ou o que antes elas viviam podíamos chamar de confinamento escolar?

  O isolamento social com crianças pode ser um grande presente para os adultos que vivem com elas. Só é preciso estar atento à esta grande oportunidade. Novas dinâmicas e fortalecimento de vínculos têm uma oportunidade ótima de acontecer durante o isolamento social. Para rever escolhas, táticas e estratégias de misturar o seu mundo e o das crianças, quais as perspectivas de crescimento, personalidade e cooperação é uma situação incrível.

Por uma sociedade feita de escolas livres é pelo que devemos, mais do que nunca, lutarmos para construirmos.

[Saúde Emocional] Ligue para o teu bando

Boas conversas podem ser um fator determinante para manter vínculos com suas amizades e compas.

Conhecer as pessoas é a principal ferramenta para manter a organização, mobilização e a motivação de qualquer projeto; e claro, também para toda situação que preserve os laços e fortaleça a confiança mútua nestes tempos de isolamento social. Mas o que fazer quando não é possível estar presencialmente? Manter vínculos é fundamental mesmo diante da difícil realidade e da complexidade dos momentos que estamos vivenciando com a epidemia do Novo Coronavírus. Contar com nosso bando para compartilhar problemas e buscar soluções coletivas, sem ignorar a subjetividade de cada pessoa. O isolamento social não pode servir de justificativa para desfazer os compromissos que temos entre nossas amizades e compas.

Esse artigo busca incentivar conversas frutíferas com as pessoas que você não pode estar perto. Conversas humanas que sigam um fluxo natural e criem oportunidades para brotar ideias férteis e que respeitem nossas emoções e sensibilidades. Dedique alguns minutos para pensar um pouco sobre a importância de tornar os vínculos mais fortes entre monas, minas e manos que tocam projetos com você.

Ter alguém para conversar é muito bom. Mas antes de mais nada, tente saber se é possível fazer uma ligação ou se está havendo alguma dificuldade com a pessoa com quem quer conversar; pois lembre-se que ainda que muitas pessoas estejam em isolamento social, isto não significa que elas estejam absolutamente disponíveis o tempo todo. Em todas as casas as rotinas e os horários mudaram. Sabemos que você está ligando para algo realmente importante e que você se preocupa com as pessoas que compartilham de seus projetos; mas os cuidados com a saúde, estabilidade emocional e a segurança de co-habitantes é a prioridade neste momento. Busquem definir juntos qual o melhor horário e quanto tempo levará a ligação.

Algumas dicas antes de começar:

  • Se você precisa tratar de um problema em seu projeto/coletivo, antes verifique se a pessoa não está atravessando problemas maiores;
  • A ligação pretende corrigir um problema que aconteceu ou pedir ajuda para tomar uma decisão? Antes de jogar todas as questões, perceba se os dilemas envolvidos estão evidentes e entendidos;
  • Se o problema é com outra pessoa do grupo, o melhor é falar com ela antes de levar a questão às demais, uma conversa franca para entender as motivações pode ser mais efetiva do que fazer especulações/fofocas com outras pessoas;
  • Compartilhar princípios é o mais importante. Quanto às ideias e posições, cada pessoa tem a sua e quanto maior for a diversidade de ideias e opiniões, melhor para o grupo. Ninguém precisa pensar exatamente igual a você e isto é ótimo;
  • Lembre-se, essa é uma conversa ponto a ponto, não a revolução das massas!

Ao começar a conversa:

  • Cultive a empatia: vá com calma, seja bacana;
  • Não há problemas em entrar em detalhes, busque entender como brotam as motivações, os problemas, as ideias, como foram superados problemas anteriores e como está sendo atravessar esse momento;
  • Procure tratar um assunto de cada vez e deixe evidente sobre o que está falando. Exemplos: Quero saber como você está? / Você me ajuda a tirar uma dúvida? / Preciso tomar uma decisão importante e quero saber o que você pensa / É necessário corrigir um problema e talvez você queira ajudar;

Durante a conversa:

  • Não é o momento de exigir um compromisso, as pessoas estão com medo, sentindo-se sozinhas e cheias de incertezas, quem puder se comprometer em apoiar alguma decisão importante ou pegar alguma tarefa pra si fará isso durante a conversa se estiver afim, não fique perguntando se ela pode isso ou aquilo, a menos que ela se ofereça para contribuir;
  • Ainda que você tenha alguma liberdade pra isso, não faça perguntas sobre finanças, relacionamentos ou tratamentos de saúde. A menos que este seja o tema principal de sua ligação e você possa contribuir efetivamente para mudar algo;
  • Busque promover um caminho de descobertas, mesmo que você tenha algumas respostas, incentive a pessoa a responder sobre as próprias perguntas;
  • Cada pessoa tem a sua motivação para participar de um projeto. Preservar e alimentar essa motivação é mais importante do que ela fazer exatamente o que você espera dela;
  • Às vezes as emoções podem transbordar, permita que essa seja uma experiência positiva;
  • Procure não encontrar culpados, o objetivo é encontrar soluções;

Antes de encerrar:

  • Lembre-se de retomar alguma pendência ou apresentar o andamento das questões de conversas anteriores;
  • Repita os pontos mais importantes que você entendeu e confirme se suas impressões estão de acordo;
  • Certifique-se se a pessoa está disposta a aceitar outras ligações e combine o melhor horário;
  • Não esqueça de agradecer pelos bons momentos de conversa.

O objetivo é ouvir outra pessoa, saber seus sentimentos, ideias e preocupações. Não é necessário ligar para todas as pessoas do seu grupo no mesmo dia, faça um pequeno planejamento para conciliar o tempo que você tem disponível e as prioridades de cada conversa. Esse é o momento em que todo apoio emocional é necessário e bem-vindo.

Adaptado de Philadelphia Tenants Union’s COVID-19 Organizing Guide

Uma conversa sobre álcool e isolamento social

netflix e cerveja

Sim, estamos com muita ansiedade! Nesse período de isolamento social é possível perceber que muitas pessoas estão em suas casas preservando a saúde e evitando contatos sociais e isto é ótimo. Porém, quando vemos as chamadas redes sociais percebemos as amizades tomando outras coisas além de precauções.

Com as perdas substanciais nas vendas do setor de bebidas alcoólicas no período da pandemia do novo coronavírus, muitos eventos de transmissão ao vivo são patrocinados pela indústria cervejeira. É possível ver imagens de suas amizades na frente da Smart TV com o copo de goró na mão, ou ostentando garrafas e rótulos como se fossem troféus. A indústria vai investir pesado para que essas fotos se tornem ainda mais comuns. É preciso lembrar que consumo e privilégios estão diretamente relacionados, dentro ou fora de qualquer período de pandemia. O grande capital depende do seu consumo: desobedeça.


Saúde mental e estabilidade emocional

Por favor, lembre-se que sua saúde mental é tão importante para você descobrir e vivenciar esse novo momento da vida, quanto para aquelas pessoas que compartilham a moradia contigo e também para todas nós que precisamos da sua ajuda, suporte, disposição e estabilidade emocional. Teremos pela frente tempos muito difíceis e precisaremos que militantes, ativistas, camaradas, companheiras e compas estejam cientes, alertas das necessidades e unidas em solidariedade. Sem paranoia e sem indiferença com as pessoas que mais precisam da mobilização de quem está em segurança.

Frequentemente, quando alguém consegue escapar do papel de trabalhador/consumidor, a bebida se faz presente lá, um remanescente teimoso de nosso tempo de lazer colonizado, para preencher o promissor espaço aberto. Livre dessas rotinas, poderíamos descobrir outras formas de usar o tempo e energia e buscar prazer, formas que poderiam provocar riscos ao sistema de alienação.

Anarquia & Álcool, Crimethinc, pág. 14.

Álcool como recompensa

Sabemos que a bebida está diretamente associada as interações sociais que fazem falta para muitas pessoas nesse momento. Pois é tomando o “gole” que se encontra as amizades na rua, em frente aos bares e muitas vezes despertam os corpos para outras formas de encontros. E com o isolamento social devido a pandemia do COVID-19 essas interações sociais se tornaram praticamente impossíveis. Não há rua, bares ou corpos para interagir de modo totalmente seguro. E o que resta dessas lembranças da “normalidade” é o álcool. Disponível no mercadinho da esquina onde se buscam os mantimentos ou direto na porta através de um “delivery”.

Para muitas pessoas, tomar uma garrafa (ou duas) depois do trabalho pode ser utilizado como uma forma de recompensa por ter de suportar a rotina, o patrão, as tarefas inúteis e o sequestro de várias horas do dia em troca de um salário precário na maioria das vezes.

O álcool na rotina das mulheres

Vale ressaltar que o consumo de bebidas alcoólicas muitas vezes é considerado como mais uma “atividade normal” dentro da rotina das mulheres. O copo cheio que aparecia no final do expediente, agora está disponível em qualquer tempo no home office. Para mulheres que são mães ou tutoras a “recompensa” pode surgir depois que as crianças dormem e “sobram” algumas horas para cuidar de si.

Conforme a pesquisa “Álcool e a Saúde dos Brasileiros: Panorama 2020” do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool – CISA: houve um aumento de 19% no número de internações relacionadas ao uso de álcool entre as mulheres (de 85.311 para 101.902), entre 2010 e 2018, enquanto entre os homens houve uma ligeira redução de 1,1% (de 251.616 para 248.722). Entre 2010 e 2017, número de óbitos parcialmente ou totalmente atribuíveis ao álcool cresceu 15% entre as mulheres — de 13.813 mortes em 2010 para 15.876 em 2017. Entre as mulheres com 55 anos ou mais, houve aumento de 29%.

Você bebe porquê merece?

Essa conversa não é sobre o problema de tornar o álcool um hábito. A pergunta que precisamos fazer é se você precisa beber todos dias durante o isolamento social?

Ninguém deseja uma existência maçante e monótona, muito menos quando você precisa passar muitas horas com você mesma, ou convivendo com outras pessoas 24 horas por dia. É difícil lidar com uma verdadeira montanha-russa de emoções. Muitas pessoas tem evitado de acompanhar as notícias e isso pode realmente ser bem estressante. Mas ignorar a realidade dos fatos e o sofrimento das pessoas que estão compulsoriamente envolvidas em condições sanitárias, ambientais, econômicas e políticas absolutamente diversas é insensível ou desumano.


Auto-isolamento social e solidariedade

O capitalismo absorveu boa parte da luta contra o tédio na sociedade de consumo, a sociedade do consumo provê uma gama de produtos e nichos de distração constante jamais vista antes. Novos produtos como jogos eletrônicos massivos e redes sociais ao vivo envolvem altos níveis de participação individual e estimulação dessazonalizada. Por isso é importante pensar sobre como você está utilizando o seu tempo.

Utilize o tempo que você dispõe para exercer a solidariedade na sua vizinhança, para fortalecer campanhas on-line de arrecadação de recursos financeiros e todas as atividades de camaradas, companheiros e compas que buscam atender as necessidades mais básicas das pessoas nesse momento tão difícil.

Você sabia que com a grana de um “fardo de latinhas” dá para comprar uma caixa com 50 pares de luvas cirúrgicas? OK, você não quer ouvir falar sobre isso. Mas é preciso ser dito. Não estamos numa festa, não estamos de férias, estamos diante da maior emergência humanitária do século 21.

Não depender do álcool para obter alegria, prazer e êxtase é simples. Existem vários modos de compreender o tempo neste período. Você pode: afinar seu violão, voltar a desenhar, escrever um zine, fazer pão, ler um pouco. Tente desligar-se das telas por um tempo. Faça anotações sobre como estão os seus dias, crie um manifesto, desenvolva uma rotina de exercícios físicos e/ou meditação, converse com as pessoas que compartilham a moradia contigo para trocar experiências, impressões e táticas para enfrentar esse momento; peça e aceite cuidados.

A Organização Mundial da Saúde publicou um guia com cuidados para saúde mental durante pandemia de onde podemos destacar a seguinte recomendação:

Cuide de você. Tente utilizar métodos para lidar com a situação como fazer pausas e descansar entre os seus turnos de trabalho e até mesmo tirar um momento dentro do expediente. Tenha atenção ainda aos seus alimentos para manter uma dieta saudável, fazer exercícios físicos e ficar em contato com a família e com os amigos.

Evite formas errôneas de lidar com o estresse como o uso de tabaco, álcool ou outras drogas. A longo prazo, eles pioram o seu bem-estar físico e mental. Este é um cenário sem precedentes para muitos trabalhadores especialmente aqueles que nunca participaram de respostas semelhantes a uma crise ou pandemia. Para os que têm alguma experiência, tente utilizar o que deu certo no passado e que pode ser útil de novo. Você pode conseguir reduzir o estresse. Não estamos numa corrida, esta é uma maratona.

OMS

A recomendação utilizada pela OMS é para profissionais de saúde em atividade no enfrentamento ao Novo Coronavírus, mas serve igualmente para as pessoas em isolamento social. Uma boa reflexão sobre como estão sendo utilizados os recursos financeiros disponíveis e os tipos de entretenimento e uso do tempo são bem importantes.

Queremos que você fique em casa, e que o privilégio dessa escolha possa proporcionar um período significativo de grandes transformações na sua forma de articular os afetos, de compreender os significados daquilo que é realmente importante para você, para as pessoas próximas, para uma ideia de comunidade e para uma outra forma de compreender o mundo.

Mudanças sérias precisam acontecer,
precisamos de você.


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