Apoio Mútuo

Mudanças sérias precisam acontecer

Autor: znth

Sobre o Enfrentamento a COVID-19 – Um pensamento a partir da experiência autonomista e popular

No difícil contexto dos dias atuais, em que globalmente enfrentamos o novo Coronavírus, assistimos a inúmeras iniciativas populares, tentando amortecer os pesados efeitos da pandemia.

Seja individual ou coletivamente, é perceptível a emergência de um sentimento geral de que devemos nos apoiar, uns as outras, afim de sobrevivermos da melhor maneira possível, além de contribuir com as pessoas que tem situações econômicas e de saúde mais delicada.

As pessoas estão doando e preparando comida, estão oferecendo ajuda aos mais idosos, estão contribuindo financeiramente, fazendo vaquinhas, costurando voluntariamente máscaras, estão oferecendo distrações online, cursos gratuitos e até apoio emocional.

CriarComunas (Andre Luiz G.)
Nanquim e caneta hidrocor sobre papel

O Coletivo Kasa Invisível, em Belo Horizonte, é somente um exemplo de grupo de pessoas que têm se empenhado em contribuir socialmente para amortecer os impactos da pandemia. Outros grupos e indivíduos Brasil afora também o têm feito, através de importantes projetos solidários.

Porém, assim como o referido coletivo de Belo Horizonte faz, é de extrema importância que essas iniciativas não sejam feitas de maneira acrítica. Se por um lado, a pandemia nos alerta mais uma vez sobre os impactos ambientais gerados pela lógica capitalista de produção, que enquanto estiver em marcha, deixará a humanidade, dia após dia, mais vulnerável a outros novos vírus, ainda mais letais que o mais recente coronavírus, por outro lado, nos lembra também sobre o perverso impacto da lógica Neoliberal, que busca transformar direitos básicos em mercadoria e que vem a décadas sucateando o sistema publico de saúde, deixando a população pobre ainda mais desprotegida, em beneficio de grandes empresários e corporações de saúde.

Nesse contexto, o coronavírus chega agora a países pobres, com situações econômicas distintas da europeia ou chinesa. Aqui, ainda mais, o apoio mutuo joga um papel importante.

Grupos e articulações populares no contexto de enfrentamento ao Coronavírus

Fortalecer das iniciativas de autônomas será importante antes e depois dos momentos mais críticos da pandemia. A possibilidade que o momento parece exigir, é do estreitamente de laços entre organizações, coletivos, iniciativas e indivíduos ativos, seja localmente, nacionalmente e internacionalmente. Esse estreitamento poderia contribuir com o fluxo de recursos, doações, ideias e informações, além do apoio emocional e jurídico, em determinados casos.

Dado esse passo, a trama social costurada durante a guerra contra o vírus, pode permanecer como estrutura de articulação popular, passado o período mais crítico da doença. A internet pode servir como ponto de encontro, pelo menos por enquanto.

Algumas interessantes iniciativas

Além da arrecadação, preparo e doação de alimentos e itens de higiene, seja para população de rua ou para familias pobres, outras iniciativas também tem ganhado corpo.

  • A exemplo das Greves de Alugueis, que vem acontecendo em outros países, grupos de pessoas tem se articulado afim de apoiarem-se mutuamente, entre famílias que não conseguirão pagar o aluguel, devido aos impactos econômicos da pandemia. Esse apoio se dará através da articulação de uma ampla rede de apoio e suporte jurídico, afim de evitar que ocorram despejos, sobretudo durante a pandemia.
  • Grupos têm se articulado em diversas regiões do país afim de realizar a desinfecção de locais públicos desamparados pelo estado, com uso de borrifadores manuais.
  • Outras tem se articulado com o objetivo de, mesmo tendo que aprender no momento, costurar mascaras para serem doadas em comunidades pobres e para a população de rua.
  • Pessoas tem também se articulado para ajudar a população carente a acessar o auxílio emergencial do governo federal.
Pôster do artista anarquista N.O. Bonzo.

Uma grande apanhado de iniciativas realizadas no território brasileiro pode ser acessada na pagina: apoiomutuo.com.br.

A construção de articulações populares se torna urgente nesse momento atual, uma vez que um dos rastros que o COVID-19 deixará, é de, por um lado, mais empobrecimento e desemprego, e por outro, de uma capacidade ainda maior de controle e vigilância por governos, no nosso caso, de extrema direita radicalmente neoliberal.

O campo dos movimentos populares libertários precisam correr contra o tempo, se de fato, acreditam, que um outro fim do mundo é possível.

Cartilha: Perguntas e Respostas Sobre a Greve de Aluguéis

O espectro da Greve de Aluguel já ronda o Brasil. E, com ele, dúvidas, insegurança e incertezas. Por isso, organizamos aqui algumas respostas às perguntas mais frequentes quanto às consequências e implicações de uma greve de alugueis – o que é? o que diz a lei? posso ir para a prisão? Com isso, esperamos esclarecer algumas questões e estimular a todas as pessoas que já não têm condições de pagar o aluguel para que se organizem coletivamente. Sozinhas somos fracas e seremos despejadas uma por uma. Juntas, temos poder de resistir.

Entre em contato, envie dúvidas e informações para melhorar e ampliar nossas ferramentas, veja quais grupos assinam endossam essa campanha, proponha para seu coletivo ou organização para assinar também, organize no seu bairro e comunidade a luta pela imunidade de todas nós.

O que é uma greve de aluguéis e como ela funciona? 

Uma greve de aluguéis é quando um grupo de inquilinos decide coletivamente parar de pagar o aluguel. Pode ser a um proprietário em comum ou inquilinos que morem no mesmo bairro. Isso pode acontecer em conjunto com outra greve, como parte de uma mobilização maior, um meio de resistência contra a gentrificação, contra condições degradantes de vida, contra a pobreza em geral ou o capitalismo. Para que ser bem sucedida, uma greve de locatários requer três elementos: 

  1. Insatisfação Compartilhada. No começo, mesmo que os vizinhos não tenham expressado suas demandas, é necessário que compartilhem da situação de uma forma mais ou menos comum: que é ultrajante ou intolerável que eles corram o risco de perder o acesso a suas casas, e que eles não confiem nos meios legais de estabelecer justiça.  
  1. Divulgação. Nas principais Greves de Aluguéis dos últimos 100 anos, a maioria foi iniciadas por um pequeno grupo de pessoas e se expandiu a partir daí. Portanto, elas precisam de meios para convocar à ação, comunicar suas demandas, requisitar apoio e solidariedade. Em muitos casos, os grevistas podem vencer com apenas um terço dos inquilinos das propriedades participando, mas a divulgação é necessária para chegar a esses números e fazer com que a ameaça de que a greve irá se espalhar seja convincente.  
  1. Apoio. As pessoas que entram em greve precisam de apoio. Precisam de apoio legal para procedimentos jurídicos, para moradia àqueles que forem despejados, apoio físico para lutar contra os despejos e apoio estratégico frente à repressão em larga escala. Em muitos casos, especialmente em greves maiores, os inquilinos encontraram apoio entre eles através de ajuda mútua e criando a estrutura necessária para sobreviver. Em outros casos, os grevistas procuraram formas existentes de organização. Mas a iniciativa da greve sempre vem dos inquilinos que ousam começá-la.  

Como estão se desenvolvendo as greves de aluguéis ao redor do mundo?

Estados Unidos: A partir do dia primeiro de maio, a cidade de Nova York começou a maior greve de aluguéis que o mundo via há quase um século. A greve foi convocada pela associação de inquilinos da cidade, apoiada pela organização “Rent Strike” 2020.  Espanha: Na Espanha, o Sindicato dos Inquilinos, junto com mais quase 200 outras organizações, puxou uma greve que está acontecendo desde 1º de Abril.  

Inglaterra: Na Inglaterra, a greve de aluguéis foi puxada, dentre outros, por centenas de estudantes do país. No primeiro de Maio, outras centenas de trabalhadores declararam: não vamos pagar.  

Austrália: Na Austrália, já foram recolhidas mais de 17 mil assinaturas numa petição pelo congelamento dos aluguéis proporcionada pelo Union group Industrial Workers of the World (IWW).  

Venezuela: Na Venezuela, o pagamento dos aluguéis de casas e estabelecimentos comerciais já estão suspensos desde o início de abril até setembro deste ano, além do pagamento de contas como água, luz e gás, e a proibição das demissões até o final de dezembro, como proteção das famílias trabalhadoras.

É legal a greve no Brasil?

O que a lei define? A Constituição Federal (como Direito Fundamental) assegura que cabe “aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender”. Em legislação específica sobre isso, descobrimos que é considerado legítimo o “exercício do direito de greve a suspensão coletiva, temporária e pacífica, total ou parcial, de prestação pessoal de serviços a empregador”. 

Em que implica a ausência de uma lei específica? A imprevisão quanto a situação inquilino-proprietário nem a permite nem a proíbe. Então, mesmo que a lei específica defina greve como suspensão da prestação pessoal de serviços, deve-se também levar em consideração o papel da greve como uma ferramenta de defesa desses interesses a qual cabe o trabalhador defender. A greve de aluguéis, mesmo não se encaixando na definição específica da legislação, se coloca, portanto, como instrumento de mobilização na luta pelo direito à moradia, uma vez que, em situações de crise e precariedade das condições econômicas, a impossibilidade de pagar o aluguel  é uma ameaça a ter um local para morar devido às ações de despejo. 

Quais os possíveis resultados de uma greve de aluguéis no Brasil? Não foi encontrada nenhuma jurisprudência do Direito Brasileiro a respeito de movimentos de greve de aluguéis, o que dificulta saber quais são as possíveis consequências. Entretanto, tratando-se de uma mobilização abrangente é possível pensar negociações diretas entre inquilino e locatário, principalmente com a paralisação de vários inquilinos de um mesmo locatário.

Na Espanha, o Sindicato dos Inquilinos disponibilizou formulários para que os arrendatários informem a adoção à greve de aluguéis ao locatário na situação atual do COVID-19, nos quais são incentivados acordos sem a necessidade de se adentrar na esfera judicial. Além disso, há uma tendência dos tribunais de não autorizarem o despejo tendo em vista a situação de crise pelo COVID-19.

Fob-SC

Se eu não pagar, posso ser preso?

De acordo com a Constituição Federal de 1988 em seu art. 5., inciso LXVII, “não haverá prisão civil por dívida, salvo a do responsável pelo inadimplemento voluntário e inescusável de obrigação alimentícia e a do depositário infiel”. Portanto no Brasil a prisão por dívida ocorre apenas no caso de devedor de pensão alimentícia, não mencionando prisão por não pagamento de aluguel. 

Se eu não pagar, posso ter meu salário penhorado?

O que é Penhora? É a apreensão judicial de patrimônio do devedor para o pagamento da dívida ou obrigação. 

Como é aplicada a penhora de salário no Direito brasileiro? De acordo com o novo Código de Processo Civil (CPC), o salário é impenhorável, exceto em casos de dívida de natureza alimentícia ou de renda maior que 50 salários. Entretanto, a jurisprudência do STJ tem relativizado essa lei, admitindo a penhorabilidade de salário para casos em que a renda do devedor não se comprometa de modo a prejudicar a dignidade e a plena participação do indivíduo na sociedade (por isso, a penhora de salário normalmente se aplica a indivíduos com renda alta). Além disso, ainda de acordo com tal jurisprudência, o salário é um rendimento composto destinado a sanar inúmeras necessidades inclusive a moradia e, por isso, seria válido que se penhorasse parte dele para o pagamento do aluguel.  

Quem não pagar aluguel na pandemia pode ter seu salário penhorado?

No contexto atual de crise epidêmica, política e econômica, a probabilidade de aplicação da medida em questão é reduzida significativamente. Em síntese, a crise causada pela pandemia gera a diminuição dos recursos e um consequente impacto financeiro na população, fato que justifica a ausência de pagamento de aluguéis, pois existem necessidades que devem ser priorizadas nesse momento como a alimentação e os gastos com a saúde.  

Se eu não pagar, terei acréscimo da dívida por juros?

Como são aplicados esses acréscimos no Direito brasileiro? De acordo com a lei 8245/1991, caso o locatário não pague pontualmente o aluguel, haverá o acréscimo de correção monetária, multas e juros (devem estar previstos em contrato). 

Qual o valor máximo para esses acréscimos? O Decreto Federal Nº 22.626 (conhecido como “Lei da Usura”) determina que aluguel não pago deverá sofrer um acréscimo de até 1% ao mês de juros e multa de 10%.  

Quem não pagar aluguel na pandemia está sujeito a acréscimos por juros? No dia 3 de abril foi aprovado no Senado o Projeto de Lei 1.179/2020, que suspende temporariamente regras do Direito Privado. O projeto prevê que o locatário pode alegar força maior devido à pandemia de coronavírus para suspender ou reduzir o valor da mensalidade, conforme o artigo 393 do Código Civil: “o devedor não responde pelos prejuízos resultantes de caso fortuito ou força maior, se expressamente não se houver por eles responsabilizado”.

Se eu não puder pagar, posso negociar o pagamento do aluguel?

O que está presente no ordenamento? Judicialmente, alegando-se força maior (artigo 393 do Código Civil), existe a possibilidade de negociar a diminuição das parcelas, a suspensão do pagamento ou até mesmo a resolução contratual. Além disso, também é possível fundamentar-se na Teoria da Onerosidade Excessiva e na Teoria da Imprevisão. 

Quando a Teoria da Onerosidade Excessiva pode ser aplicada? Prevista no art. 478 do CC, pode causar a resolução (nulidade) ou a revisão do contrato. Segundo o STJ, os requisitos legais à caracterização da onerosidade excessiva são, repartidos de forma didática:  

  1. o contrato de execução continuada ou diferida (caso do contrato de locação); 
  2. alteração da base fática na vigência do contrato;
  3. que esta alteração da realidade seja um acontecimento extraordinário e imprevisível, inclusive na época da contratação;
  4. esta alteração seja responsável pelo desequilíbrio contratual;
  5. desequilíbrio este caracterizado por uma vantagem extrema para uma parte;
  6. e a onerosidade excessiva da outra.

Cabe ao juízo, diante do caso concreto, averiguar a existência de prejuízo que exceda a álea normal do contrato, com sua consequente resolução. 

Quando a Teoria da Imprevisão pode ser aplicada? Constante no art. 317 do CC, atinge apenas a revisão contratual, não possibilitando, com isso, a resolução do contrato. São quatro os pressupostos da revisão contratual por aplicação da teoria da imprevisão: 

  1. que se trate de contrato comutativo de execução diferida ou continuada (como o caso do aluguel);
  2. que, quando da execução, tenha havido alteração das circunstâncias fáticas vigentes à época da contratação; 
  3. que essa alteração fosse inesperada e imprevisível quando da celebração do contrato;
  4. por fim, que a alteração tenha promovido desequilíbrio entre as prestações.

Como pode ocorrer a revisão e a resolução do contrato de locação em tempos de pandemia? É inegável a existência de uma situação completamente atípica e extraordinária, a pandemia do COVID-19. Neste sentido, é possível que o locatário peça a redução ou a suspensão da mensalidade com posterior parcelamento (ambas hipóteses de revisão, a partir da teoria da imprevisão), ou, ainda, a resolução do contrato se comprovada a onerosidade excessiva e a vantagem extrema da outra parte. Aparenta, a priori, ser melhor a hipótese de revisão contratual, tendo em vista que, uma vez deferido o pedido de revisão, a família permanece no imóvel já ocupado. Ademais, por precisar de menos critérios de base objetiva, a possibilidade de se obter sucesso torna-se maior. 

Se eu não pagar, posso ser despejado?

O que diz a lei? A Lei do Inquilinato (lei 8245/91) estabelece a falta de pagamento do aluguel e demais encargos acessórios – tal qual o condomínio – como uma hipótese de cabimento para a Ação de despejo.

Quando a ação de despejo pode ser iniciada? Ao contrário do que costumeiramente se pensa, não há qualquer orientação legal no sentido de apontar para necessidade de prazo mínimo de inadimplência, de tal forma que o locador pode dar início à ação de despejo desde o primeiro dia após o vencimento do aluguel.Cabe ressaltar que a execução do despejo só ocorre, em caso de inadimplemento, nos casos em que contratualmente não é especificada outra forma de garantia de pagamento ou fiança. 

a) O que muda com a pandemia? Projeto de Lei 1.179/20 A PL 1.179/20 tem como objetivo disciplinar acerca de diversos temas de direito privado de forma emergencial tendo em vista a pandemia. O projeto agora segue para votação na Câmara de Deputados. No tocante ao contrato de locação o projeto de lei prevê, no artigo 9º a proibição da concessão de liminar para desocupação do imóvel, para ações de despejo com base na falta de pagamento da Lei 8.245/1991, ajuizadas a partir de 20 de março até 30 de outubro de 2020. 

b) O que determina a jurisprudência? Tendo em vista que, até o presente momento, não foi feita qualquer alteração legislativa para conter os despejos oriundos da ausência de pagamento do aluguel, resta analisar o que o judiciário tem feito, a nível dos tribunais estaduais, para barrar tal medida. Os resultados da pesquisa, entretanto, já se adianta que não foram satisfatórios. Em pesquisa feita diretamente no site do TJ-SP fora encontrado acórdão que impediu a reintegração de posse em razão da pandemia de COVID-19.Tal achado leva a crer que, apesar o vazio no que diz respeito às ações de despejo oriundas do contrato de locação, há, ao menos, jurisprudência no sentido de evitar despejos oriundos da reintegração de posse. Guardadas as devidas proporções e limitações que diferenciam as duas situações jurídicas, talvez esse precedente possa ser útil, a nível de argumentação, para impedir despejos por falta de pagamento de aluguel ou demais encargos acessórios.  

Características Históricas Comuns

  1. Historicamente, a maioria das greves começaram pela iniciativa de mulheres; em todos os casos, elas desempenharam um papel importante. As greves sempre ocorreram em contextos em que os inquilinos passavam por condições parecidas: o aluguel que toma grande parte dos salários; o perigo de perderem suas casas e uma onda de indignação causada por condições de saúde precárias, contextos como o colonialismo Inglês (como na greve de Roscommon), ou em reformas que favorecem uns e prejudicam outros. Quase sempre existe uma centelha: frequentemente, o aumento nos preços ou o declínio das oportunidades econômicas dos inquilinos.
  1. Geralmente, as greves começaram espontaneamente, o que não significa que elas aconteceram do nada, mas que resultaram – em contextos favoráveis – de iniciativas de vizinhos, implementadas via assembleias ou por redes efetivas de bairros. Partindo deste ponto, elas criaram suas próprias organizações ou receberam apoio de organizações já existentes. Em outros casos, uma organização formal existe desde o começo da greve, mas eram organizações bastante pequenas criadas por locatários, não por grandes organizações sindicais ou partidos. Encontramos apenas um caso em que uma greve de aluguéis foi convocada por uma grande organização – em Barcelona, 1931.
  1. No que diz respeito as chances de vitória, é imprescindível que a greve se alastre o máximo possível, mas não é necessário que envolva uma maioria. As greves venceram com a participação de um quarto ou um terço dos inquilinos que estão sujeitos ao mesmo proprietário. Nos casos de greves realizadas em um determinado território e não endereçadas a um dono em particular, desde que interrompam suficientemente a normalidade, elas podem provocar uma crise no governo, saturando o sistema legal, mesmo tendo a participação de uma proporção bem menor do total de habitantes de uma cidade. A determinação em continuar firmes e serem solidários ao invés de buscar soluções individuais é mais relevante que o número de pessoas em greve.

Leia o manifesto:

Nos Recusamos a Pagar – Um Manifesto Pela Greve de Aluguéis

Somos milhares de inquilinos e inquilinos que esta crise está deixando sem renda. Não podemos pagar o aluguel da casa onde moramos ou da empresa ou escritório onde trabalhamos. Leia nosso manifesto.

Como Reproduzir Ações Solidárias na sua Quebrada – E cozinhar para 55 pessoas!

DICAS PARA REPRODUZIR AÇÕES SOLIDÁRIAS NA SUA QUEBRADApor Coletivo Kasa Invisível

O apoio mútuo é fundamental para a organização popular em tempo crises, como a pandemia de COVID-19, mas também para a transformação social. Reunimos algumas dicas para quem pretende reproduzir ações solidárias para distribuir alimentos e itens de higiene para pessoas em maior vulnerabilidade. Descentralize, difunda e mobilize outras pessoas e grupos. Solidariedade não é caridade, é ação direta e apoio mútuo!

➯ Reúna pessoas (de 3 a 6) que se solidarizam com a proposta e assumam o compromisso;

➯ Defina como será a atuação e o que podem oferecer (rango, cestas básicas, roupas, cobertores, etc.);

➯ Crie/acione sua rede de apoio, coletivos, ONGS’s, pastorais, movimentos, sindicatos e pessoas que podem apoiar mesmo que diretamente nas ações, podendo ajudar com grana ou doações de materiais;

➯ Escolha um ponto de encontro, um local para receber e processar as doações, preparar o rango e um número máximo de pessoas para estar no ambiente de forma segura, com máscaras e sem causar aglomeração, respeitando uma distância de alguns metros;

➯ Pense no alcance possível para a ação e nas questões logísticas, dia, hora, quem faz o quê, periodicidade;

Na Kasa Invisível, temos feito kits de higiene com doações de máscaras, água, sabão, escova e pasta de dente, absorventes e panfletos informativos sobre cuidados na pandemia, as medidas de higiene básicas e sobre o auxílio emergencial. Junto desse kit, entregamos também uma marmita. Abaixo, uma receita de feijoada vegetariana e de como montar uma ação de distribuição.

COMO COZINHAR PARA 55 PESSOAS – 50 marmitas + 5 amigues preparando

Utensílios necessários:

☼ 1 tábua, 1 faca, 3 colheres grandes, 1 concha.3 bacias grandes.2 panelas grandes e 1 caldeirão.3 panelas de pressão 4,5L
Receita e preparo:
(arroz, farofa de legumes e feijoada veg)

☼ 5kg de arroz.2kg de farinha de mandioca.3kg de feijão.tempero pronto (alho&sal).3 abobrinhas médias.3 berinjelas médias.12 batatas médias.3 beterrabas médias.2 cebolas grandes.8 cenouras médias

Farofa:

Numa das panelas grandes: óleo, meia cebola até dourar, tempero pronto, adicione a metade das cenouras e das beterrabas raladas, frite um pouco, adicione 1kg de farinha de mandioca e mexa até ficar uniforme. Repita o processo com o outro 1kg de farinha e cebola e legumes ralados. Armazene na bacia grande até a montagem das marmitas.

Feijoada Vegetariana:

Deixe de molho o feijão 10 a 12h antes. Troque a água e cozinhe 1kg em
cada panela de pressão.No caldeirão: óleo, uma cebola picada até dourar, tempero pronto, adicione as berinjelas, abobrinhas e as batatas em cubos, refogue até que cozinhe um pouco, adicione o feijão cozido e água até cobrir e ferva até terminar de cozinhar os legumes. Pode ser adicionado aroma de fumaça, louro e outros temperos.

Arroz:

Numa das panelas grandes: óleo, tempero pronto até dourar. Adicione arroz até 1/3 da panela, água até 3/4 da panela, aguarde secar, adicione mais água se necessário. Repita o processo até terminar os 5kg de arroz. Armazene nas bacias grandes até a montagem das marmitas.

Embalagens:

✰ 50 marmitex de aprox. 700g-50 colheres-50 sacos de chup-chup
✰ Embale as colheres individualmente com os saquinhos de chup-chup.

Montagem marmitex:

♥ 2 e 1/2 colheres grandes de arroz.2 conchas de feijoada.2 colheres de farofa de legumes*sugerimos a farofa sobre o feijão para absorver um pouco do liquido e não vazar na distribuição.

Boa sorte! Compartilhe sue experiência e estimule outras pessoas a partirem também para a ação.

Nos vemos nas ruas e em segurança.
Isolamento não é inação!

Resistência é atividade essencial!

Nos Recusamos a Pagar – Um Manifesto Pela Greve de Aluguéis

Somos milhares de inquilinos e inquilinos que esta crise está deixando sem renda. Não podemos pagar o aluguel da casa onde moramos ou da empresa ou escritório onde trabalhamos. Leia nosso manifesto.

Não dá para negar que passamos por um momento estranho e delicado. Existe uma doença nova e mortal diariamente fazendo novas vítimas e os governos, do Brasil e do mundo, se debatem para evitar o colapso social, regular a economia e, quem sabe, salvar vidas. De todo o mundo, as notícias sobre o número de vítimas e as estratégias para sobreviver à pandemia não param de chegar. Espanha ocupou hotéis com pessoas sem casa, El Salvador suspendeu a cobrança de contas básicas e o Irã determinou a liberdade de mais de 70 mil pessoas encarceradas expostas a aglomeração e, logo, ao vírus.

Enquanto isso, no Brasil, distintos níveis governamentais reafirmam teorias maníacas sobre o vírus (veio do espaço, gripezinha…) e estimulam o fortalecimento do Estado policial de controle e de uma teocracia evangélica. As medidas de auxílio, em especial às pessoas mais pobres, são incipientes ou dependem de cadastramentos absurdos, e todo o sistema de governo bate cabeça sobre como lidar com os impactos da pandemia.

Apenas em uma coisa concordam: salvar a tal economia. Como se esta fosse uma princesa encerrada em um castelo, e as instâncias de governo seu príncipe encantado, mobilizam-se para salvar a economia com bilhões de reais. Os primeiros a serem socorridos de Covid19 foram os bancos. Mas as mais de 13 milhões de pessoas que moram em favelas no Brasil não sabem ainda como farão com as contas que sempre chegam, independente de sua saúde. Mais de 11 milhões de casas em São Paulo são alugadas, como serão pagos os aluguéis?

Muros entre países, muros na moradia, muros na saúde, muros na educação, muros nos cultos e culturas, muros no público. Antes mesmo da pandemia já era possível observar o empobrecimento geral das pessoas, o aumento no número de pessoas em trabalhos precários e autônomos, e centenas de vidas morando nas ruas.

Mas o vírus não vê os muros que nós vemos. Qual é a ilu$ão que mantém esses muros em pé?

Assim, nos perguntamos: o vírus que dará origem a uma crise econômica, ou a constante crise em que vivemos é que torna possível que uma doença cause tamanho número de mortes? Se houvesse acesso universal à saúde, moradia e alimentação, o Coronavírus faria tantas vítimas? Nosso verdadeiro mal, o pior vírus, é o que nos obriga a trabalhar até a morte e a pagar por todos os aspectos de nossa vida.

Assim, para que todas as pessoas estejam seguras é preciso garantir que todos e cada um de nós estejamos alimentados, seguros, em nossas casas. É preciso que quem não tem casa possa ter – ainda que nesse momento temporariamente – um teto seguro para se abrigar. Que as pessoas que vivem em aglomerações, como as pessoas presas, maioria sem julgamento e por crimes leves no Brasil, possam responder o processo em suas casas, como tantos políticos que roubam do coletivo têm direito. É preciso garantir imunidade coletiva para todas e todos.

Campanha internacional pelas 5 demandas para sobrevivência coletiva.

Desafiando a fortaleza construída em cima de nossas vidas e que nos leva somente à morte, nos recusamos a pagar a conta de uma crise que é maior que o vírus que nesse momento extermina as pessoas mais pobres. Nesse momento de vulnerabilidade, devemos reter o dinheiro de nossos aluguéis e contas, assim como bancos e governos podem arbitrariamente escolher através de sua distribuição hipócrita de riquezas quem vive e quem morre. Nos recusamos a pagar o que nunca deveria ter tido preço.

Acesse: grevedealugueis.noblogs.org

grevedealugueis.noblogs.org
Que os ricos paguem pela crise!

Resistindo em uma Ocupação no meio da Pandemia

Meu nome aqui é Z. Vivo em Belo Horizonte, em uma ocupação chamada Kasa Invisível. Como todas as pessoas em quase todos os cantos do mundo, estamos em isolamento em casa, praticamente sem trabalhar, tentando encontrar formas de manter nossa saúde, nossas vidas e as das pessoas que amamos. Nessa jornada, estamos descobrindo como adaptar nossas práticas, ampliar nosso poder de atuação tanto dentro da ocupação como na relação com nosso bairro, nossa comunidade e as redes de apoio que nos cercam. Essa é uma tentativa de relato pessoal sobre essa experiência e as lições que é possível tirar dela.

A tal da ficha caindo

Ainda lembro exatamente do momento que minha ficha caiu e me dei conta de que estamos em um momento muito sério, algo que não vimos na nossa geração e nem na dos nossos avós. Estava com minha companheira, que também faz parte do coletivo gestor da Kasa, em uma lanchonete tomando nosso último milkshake em um espaço público antes da pandemia ser oficialmente decretada e as políticas de isolamento começarem a ser implementadas em nossa cidade. Esperávamos nossa bebida enquanto falávamos sobre o possível adiamento do aniversário de 7 anos da ocupação, um evento sempre especial para nós por celebrar mais um ano segurando esse chão sob nossos pés, que esse ano contaria com relatos de participantes das revoltas no Chile e um vídeo-debate com membros de diferentes torcidas organizadas de esquerda de Belo Horizonte sobre a participação das torcidas no processo de lutas chilenas. Ou seja, algo com muita potência organizado com muito carinho e cuidado.

Cartaz anunciando adiamento do aniversário de 7 anos da ocupação Kasa Invisível.

Creio que o que me sacudiu, naquela conversa, foi ouvir da minha companheira que em dois dias todo o prédio onde ela trabalha iria ser fechado e os funcionários passariam a trabalhar de casa. Até então, para mim, a possibilidade de ver comércios fechados, pessoas de máscara nas ruas, estado de calamidade decretado e toda aquela cena apocalíptica era algo distante. É como pensar nas imagens dos noticiários que parecem sempre distantes: uma rua na China onde todos usam máscaras por conta da poluição ou de uma nova doença infecciosa ou as cenas de caos e escassez na Venezuela. Tudo isso soa tão distante quanto aquela imagem de tropas estrangeiras ocupando um país minúsculo no Oriente Médio.

Nesses momentos vem a necessidade de lembrar que vivemos em um mundo de guerras e crises permanentes, onde momentos e locais que parecem “pacíficos” e “em ordem”, são apenas um enclave, um território limitado e cada vez mais raro em um planeta coberto de degradação, poluição, brutalidade, desigualdade e desespero. A crise é a forma de governo predominante e a guerra é o estado perpétuo para a maioria da população e dos seres vivos soterrados pelo avanço do capitalismo sobre o planeta, indo do fundo dos oceanos e até o cosmos. As pessoas devem saber que são parte de uma minoria muito sortuda quando não estão no caminho de uma barragem se rompendo com lixo tóxico da Vale ou na mira dos fuzis das polícias que matam como pandemias – seja sob um governo de Lula ou de Bolsonaro.

Foi curiosamente triste perceber, logo no início, que o tal distanciamento social não mudou muito minha rotina. No início, costumava brincar que já vivia isolado em casa, sem renda e com medo do futuro da humanidade antes de ser uma tendência mundial. Na real, tirando meu trabalho como autônomo ou fazendo alguns bicos e as atividades culturais da ocupação e outras atividades políticas, meu cotidiano não mudou muita coisa. Mas foi chocante mesmo me dar conta de que essas notícias bizarras saídas literalmente do outro lado do mundo, levariam ao cancelamento do nosso evento naquele final de semana e paralisar não só as atividades políticas, mas toda a vida como a conhecemos. Logo em seguida, passamos a refletir sobre como isso colocaria em risco nossos pais, avós, as crianças da nossa ocupação, pessoas em situação de rua e todos que amamos e estão ainda mais vulneráveis que nós. As previsões de saturação do sistema de saúde e de possível colapso do sistema todo pareciam saídas de um filme sobre fim do mundo.

Logo, passamos a refletir em conjunto quais seriam os efeitos disso e como nos preparar para o momento. Morar em uma ocupação significa não perder um dinheiro que jamais voltará pagando aluguel, mas, muitas vezes, também significa que você vai gastar grande parte do seu cotidiano gerindo, defendendo o espaço e cuidando do imóvel em si, consertando o que está quebrado, melhorando as estruturas que toda casa abandonada por décadas precisa melhorar.

O fato de não nos reunirmos mais na ocupação e do espaço suspender todos os seus eventos, não recebermos mais movimentos e sindicatos que usam a Kasa como espaço de reunião, tudo isso é um choque muito grande na rotina de todos nós. Todo o senso de comunidade parece um pouco mutilado quando não nos vemos, nos abraçamos, compartilhamos um café e um lanche nem nos ajudamos nas tarefas cotidianas. Parte do coletivo não mora na ocupação. Conversas por mensagens ou videoconferência podem ser úteis, mas nada substitui o real contato humano, os efeitos biológicos das peles que se tocam e dos olhares que se cruzam.

Porém, como dissemos em uma de nossa notas oficiais: isolamento social é necessário mas não significa inação. É preciso agir! Não podemos sucumbir esperando que as autoridades façam algo por nós porque nossa vida e nosso bem-estar nunca foi uma prioridade para elas. Quando vemos uma situação de conflito ou crise, é urgente tomar partido. Como dizem por aí: “de um jeito ou de outro, um dia todas usaremos máscaras” – seja pra nos esconder de doenças ou da poluição e viver sob o medo; ou para fazer como zapatistas, primera lineas, black blocs ou batalhões internacionalistas em Roajva, que escondem suas identidades para partir para a luta com ainda mais força.

Coletivos, espaços e comunidades: pontos de apoio e de partida

Em momentos como esse fica claro qual é a importância da construção de centros sociais, de movimentos, coletivos e comunidades: estaríamos numa posição muito pior nessa pandemia se não estivéssemos em uma ocupação, gerida coletivamente, sustentada por uma comunidade que se espalha em rede pela cidade e por diferentes partes do país e do mundo. O impacto causado pela necessidade de se isolar em casa, sem trabalhar ou qualquer seguridade social é muito pior se fôssemos obrigados a pagar aluguel sem ter um emprego decente. Muitos de nós recebem Bolsa Família e estão ainda na espera do Auxílio Emergencial, que é como mais uma migalha dos governantes que tudo tiram de nós, mas são garantias mínimas que não podemos abrir mão. Relações em comunidade e o senso de coletividade é fundamental para conseguir nos manter com vida e com saúde em meio a uma crise sanitária que, com certeza, levará a uma crise política e econômica.

Saída para mais um dia de ação solidária com população em situação de rua e trabalhadorxs da região central.

Anos atrás, alguns de nós da ocupação trabalhávamos em uma loja cooperativa. O imóvel era alugado e morávamos também de aluguel em uma casa não muito longe dali. Ou seja, para viver e para trabalhar eram necessários pagar dois aluguéis. Se ainda estivéssemos nessa situação, provavelmente estaríamos muito piores e em total desespero pensando que poderíamos sofrer um despejo de dois lugares diferentes. Ocupar, além de garantir pela ação direta que tenhamos onde morar, serve para mostrar a todas as pessoas que existe muita casa sem gente e muita gente sem casa. Os antigos proprietários do imóvel que ocupamos, por exemplo, possuem dezenas de outras casas, terrenos, prédios em que nenhum deles habita, apenas buscam especular e lucrar num futuro distante enquanto as casas, como a que hoje habitamos e várias outras, se deterioram vazias e sem cuidados. Se dependesse deles, estaríamos na rua agora, em meio à pandemia, enquanto eles continuam com a propriedade de vários imóveis vazios.

Ocupar é questionar essa lógica promovendo mudanças na prática. Centros sociais radicais abrem caminho para novas relações de respeito e confiança com toda a comunidade. Essa confiança que permite a esses espaços reunir recursos, materiais e até força de trabalho. Toda a nossa ocupação foi erguida com base nisso: pessoas confiando no projeto e nas pessoas envolvidas e nos dando seu apoio doando materiais, seu tempo de trabalho, seus conhecimentos ou até dinheiro. E os frutos disso é um espaço mais estruturado, rico em atividades e possibilidades, que é aberto e compartilhado com toda a comunidade. Da geladeira, aos fios que a fazem funcionar, das cadeiras aos livros da biblioteca e suas prateleiras, chegando até o projetor que nos permite exibir filmes gratuitamente, tudo foi doado e confiado à Kasa e ao uso comum. Sem falar no tempo de membros e colaboradores que gastaram horas em mutirões instalando fios, canos, batendo piso, carregando centenas de sacos de entulho, pintando paredes e cozinhando o tropeiro vegano que alimenta cada de mutirão ou mesmo editando vídeo e artigos sobre a Kasa. Um último exemplo simbólico recente: uma família que deixou sua casa no interior de Minas Gerais por estar numa área de risco de rompimento de mais uma barragem da Vale e agora vive há mais de um ano em um hotel bancado pela mineradora, reuniu mantimentos e sabonetes do hotel para compormos dezenas de novos kits de higiene para distribuirmos – nada mais justo que obrigar a Vale a pagar por mais esses insumos. A trágica ironia das tragédias que se sobrepõe e abrem brechas para pequenos gestos solidários.

Dia de produção na cozinha da Kasa Invisível.

Essa caminhada e o ponto em que nos encontramos hoje, foram construídos com muito trabalho organizativo e com muito apoio externo. O planejamento, a organização prévia e a construção cotidiana da luta nos permitiu construir coletivamente esse momento de segurança para as famílias que aqui vivem terem um porto (relativamente) seguro nessa crise sanitária. É desse ponto de organização local que todos precisamos partir: do nível de base, de um imóvel que é lar, mas também é centro social, para o nosso entorno, nossa rua, nosso bairro e nossas redes de apoio com outras organizações e espaços.

Nos posicionando nos conflitos de interesses entre os que tem e os que não tem, fica nítido o quanto abstrações autoritárias como a propriedade privada, o mercado (seja imobiliário ou qualquer outro) servem apenas para beneficiar quem já é rico e vive dos lucros, juros, dividendos e do trabalho dos outros. Ao mesmo tempo que beneficiam poucos, essas abstrações sem sentido prejudicam diretamente a maioria, sugando os recursos de quem precisa viver de salário em salário (se tiver a sorte de ter um!) ou de bico em bico em uma economia precarizada. A lei e a polícia vão garantir que quem possui muitos imóveis, recursos ou dinheiro continue concentrando tudo isso mesmo que milhões estejam com fome, sem casa e sem saúde. A única coisa pior do que estar preso em um trabalho e em uma moradia degradante, é estar preso fora desse mercado, sem acesso a qualquer trabalho ou moradia.

Se um sistema não funciona para todos, é preciso derrubá-lo

“Todos tinham compreendido que a liberdade é uma mentira, quando a maioria da população está condenada a uma existência miserável, quando, privada de educação, de lazer e de pão, ela se vê, por assim dizer, destinada a servir de degrau para os ricos e poderosos. A revolução social apresenta-se, portanto, como uma consequência natural e necessária da revolução política. (…) A opressão de um povo ou mesmo de um simples indivíduo, é a opressão de todos, e não se pode violar a liberdade de um ser sem violar a liberdade de todos.”

Mikhail Bakunin, em Apelo aos Eslavos, 1848

Se um sistema econômico e político que deveria garantir moradia e recursos básicos não funciona para todos em um momento de crise porque alguns tem muito e outros não tem nada, fica óbvio que esse sistema não funciona e deve ser substituído por algo melhor. O mesmo vale para um sistema de saúde: se ele depende do dinheiro que cada pessoa pode pagar individualmente e não cuida de todo mundo que precisa, porque nem todo mundo tem o dinheiro para pagar, então ele é um fracasso. No momento em que entramos numa pandemia em escala mundial, onde a saúde de cada pessoa depende da saúde de todas as outras pessoas, vemos como esse modelo é injusto. Os milhões de doentes e os mortos que chegam a milhares por não poder ser atendidos nos fazem pensar em todas as pessoas que morrem diariamente nas filas dos hospitais lotados e sucateados da rede pública no Brasil, ou por não terem a fortuna necessária para entrar nos hospitais nos Estados Unidos, que são os mais avançados do mundo mas não estão acessíveis para a maioria dos seus cidadãos.

Nesse momento, a máxima anarquista atribuída a Bakunin, de que “ninguém é livre até que todas as pessoas sejam livres”, se torna verdadeira quando analisamos pelo lado da saúde: ninguém está a salvo da pandemia de Covid-19 até que todas as pessoas estejam também a salvo. A minha saúde nunca dependeu tanto da certeza de que todos ao meu redor também estejam saudáveis. Enquanto não existir vacina e imunidade, seremos lembrados de que uma pessoa doente é literalmente o risco de todas estarmos doentes e de que milhões podem morrer de uma forma terrível e solitária. Se isso nos diz algo, é que devemos encarar todas as coisas que ameaçam nossas vidas sob essa ótica: ou é para todos ou não serve. Se alguém não tem acesso garantido a moradia, comida, saúde, liberdade e bem-estar, devemos todos considerar sua miséria como uma ameaça a todas as pessoas e à sociedade. Ou nossa sociedade está organizada para garantir a todos a liberdade e o acesso a recursos necessários à vida, ou ela está organizada de forma a garantir que uma minoria privilegiada possua e administre os recursos, enquanto a vasta maioria não tem nada a não ser salários e migalhas estipuladas por essa minoria. No caso do Brasil, onde 6 bilionários possuem mais riqueza que 100 milhões de brasileiros juntos, sabemos muito bem qual é o nosso caso.

Montando os kits

Precisamos garantir que tenhamos saúde, mas que todas as pessoas ao nosso redor também tenham. Se elas estão bem, mantemos a tal curva achatada, não sobrecarregamos os hospitais, não estressamos ainda mais profissionais de saúde que se arriscam todos os dias para salvar vidas e ganhamos tempo até que alguma solução, uma vacina, um tratamento, sejam criados.

A proposta da Kasa sempre foi servir de apoio comunitário, oferecendo atividades, cursos, oficinas, música, artes, biblioteca para todas as pessoas, sempre com acesso livre e gratuito. Por alguns anos, mantivemos uma Loja Grátis na Kasa, que por vezes era montada na calçada, fornecendo roupas, calçados, ferramentas, eletrodomésticos, livros e vários outros materiais doados para a Kasa e disponíveis para quem quisesse pegar. Uma das principais funções da loja grátis era manter um vínculo e um ponto de apoio entre a ocupa e a população de rua da região. Muitas pessoas pegavam diariamente roupas, cobertores e o que mais precisassem. Desativamos a loja temporariamente, pois precisamos de espaço para instalar uma cozinha cooperativa onde moradores da Kasa podem produzir comida para vender e ter uma renda sem precisar trabalhar fora. Mas os anos em que ela esteve ativa serviu para conhecermos muitas pessoas e estabelecer alguma relação de apoio mútuo. Pensamos que retomar relação e uma forma de apoio à população de rua seria fundamental nesse momento. Assim, inspirados por ações de outros coletivos e movimentos de outros países como EUA e Chile, resolvemos bolar uma campanha para fornecer comida e kits de higiene gratuitos para pessoas em nosso bairro.

Dentro um raio de 5 quarteirões, existem ao menos outra duas ocupações recentes e com menos visibilidade. Além disso, aqui no centro da cidade, existe uma população crescente em situação de rua. Uma vez que consolidamos tanto visibilidade quanto a confiança de nossa comunidade, julgamos ser necessário usar desses elementos para promover algum apoio que beneficie os membros mais vulnerabilizados em nossa vizinhança.

Primeiro dia de entrega dos kits e da marmita na Praça Raul Soares, em 23 de abril de 2020.

Reflexões em meio à luta contra os efeitos da pandemia

Falando agora um pouco da prática nesses últimos meses, rapidamente engolimos a frustração de adiar indefinidamente o aniversário da ocupação e repensamos nossa dinâmica. Suspendemos todos os eventos e visitas de todos que não são moradores ou membros do coletivo. Anunciamos nossa nova política para o momento e inspirados por ações que vimos em diferentes partes do mundo, especialmente o pessoal do Bike System, com ações na Cracolândia em São Paulo e a Casa da Resistência, em Feira de Santana na Bahia. Tanto a estética e as estratégias para o chamado foram uma referência para nós.

Kits com o bilhete informativo.
Montagem das marmitas com a cooperativa Botequim Vegano.

Fizemos uma imagem e uma nota da campanha e difundimos nas mídias sociais, e-mails e canais em aplicativos de mensagem. Em poucas semanas conseguimos angariar cestas básicas, sabão, água, máscaras descartáveis e de pano e dinheiro para comprar outros insumos como embalagens e ingredientes para produzir as marmitas que vão junto do kit. Membros da Kasa Invisível conseguiram máquinas de costura emprestadas e passaram a produzir também máscaras de pano. Um brechó vizinho doou retalho, outras máscaras chegaram de doação por correio. Vários colaboradores produziram outras e também doaram. Assim, iniciamos a distribuição semanal dos kits e das marmitas em nossa região, que vão junto com um bilhete com dicas de higiene e informações sobre como recorrer ao Auxílio Emergencial de R$600,00. Entregando nas ruas ouvimos muita demanda por escovas e pasta de dente, então, após uma contribuição da Pastoral de Rua, conseguimos adicionar uma centena desses itens em nossa distribuição

Com a pandemia, ficou gritante o desamparo de pessoas que estão na rua e dependiam da relação com comerciantes e lojistas para catar material reciclado, conseguir comida e outras doações. Mesmo o Auxílio Emergencial continua uma promessa por cumprir, pois as opções para conseguir são ter um celular ou acesso à internet, o que parece uma piada quando sugerido para a população em situação de rua. Mesmo assim, tentamos orientar e avisar as pessoas que esse auxílio existe e é direito delas conseguir acesso a ele.

Logo de início, conhecemos outros projetos atuando na mesma região com uma frequência bem maior que a nossa, fazendo distribuição diariamente. Poucas pessoas do nosso coletivo tinham participado de ações sistemáticas de apoio à população de rua e suas experiências também contaram. Como fazemos desde o primeiro prego batido no primeiro mutirão, registramos cada passo em vídeo e fotos que fomos compartilhando em nossas mídias e arquivando. O coletivo Antimídia se ofereceu para produzir um breve vídeo para divulgar a ação e inspirar novas ações em outros lugares. A cada dia, outras formas de solidariedade começam a surgir. Camaradas envolvidos em outras ações maiores com organizações e empresas conseguiram canalizar dezenas de cestas básicas a serem entregues tanto aqui na Kasa Invisível como na Ocupação Guarani Kaiowá, uma grande ocupação em Contagem, região metropolitana de BH. Uma cooperativa familiar de pães doou dezenas de pães artesanais, amigos e familiares trouxeram o resultado de suas colheitas em terrenos ou quintais e a Kasa se encheu de tomates, mandioca e cestas básicas que recebem a mais. Roupas também começaram a chegar e, junto das cestas e outros alimentos, fomos direcionando a maior parte para as ocupações vizinhas que, como mencionei, não contam com um rosto público como a nossa. Em um tempo relativamente curto, uma época de isolamento, de medo da escassez e de incertezas passou a ser uma época de conexões, novos e antigos laços e, principalmente, de fartura e de partilha.

Conclusão: mudanças sérias precisam acontecer

“Uma parte desta sociedade tem absoluto interesse em que a ordem siga reinando; a outra, em que tudo se derrube o mais rápido possível. Decidir de que lado está é o primeiro passo.”

Ai Ferri Corti

O momento que vivemos não é um capítulo descontinuado na história do mundo. Ele é produto da exploração capitalista e do agronegócio, da domesticação e da devastação da vida animal e vegetal, do nível cósmico ao microbiológico. As forças autoritárias que aproveitam desse momento para refinar suas táticas e tornar mais brutais suas leis, são as mesmas que já vinham emergindo nas últimas décadas, agora e cada vez mais sob a sombra do populismo nacionalista de direita que engole todos os continentes. Toda crise é uma encruzilhada histórica, é um momento de mudança. Se não usarmos nossas habilidades e nossa capacidade de organização para fortalecer laços comunitários e nossa capacidade organizativa para a luta social, podemos ter certeza que governos, milícias e gangues fascistas estarão fortalecendo seus mecanismos.

Quando falamos sobre como as coisas poderiam ser ou como mudanças deveriam ser aplicadas, as pessoas podem prestar alguma atenção, mas se agimos enquanto falamos, mais pessoas vão prestar a atenção e mais a sério somos levados. Nossos mortos já são incontáveis e muitos ainda estão por vir. É nos cuidando, lutando pela continuidade de nossas vidas e nossas comunidades que vamos cuidar da vida de todos, rua por rua, bairro por bairro, aldeia por aldeia, favela por favela. Desde que entramos nesse imóvel em ruínas, sem piso, teto ou encanamentos, que hoje abriga e nutre vidas e de onde hoje escrevo essas palavras, lembramos e citamos a frase de Durruti na Revolução Espanhola: “Mas nós sempre vivemos em cortiços e buracos nas paredes. Saberemos como arranjar-nos durante algum tempo. Pois não devem esquecer que também sabemos construir. Fomos nós que construímos os palácios e as cidades na Espanha, na América e em toda a parte. Nós, os operários, saberemos construir outros para tomar o lugar dos que forem destruídos. E ainda melhores. Não temos medo de ruínas. Nós herdaremos a terra. Quanto a isso não há a menor dúvida. Os burgueses podem fazer explodir e destruir o seu mundo antes de abandonarem o palco da história. Nós trazemos um novo mundo em nossos corações. E esse mundo está crescendo a cada minuto que passa.

E assim seguiremos, carregando as sementes de um mundo novo, mesmo que caminhando à beira dos vulcões da história.

Não tememos as ruínas porque erguemos tudo que há nesse mundo!

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