A atual crise do COVID-19 possui impacto de maneira geral na sociedade de classes brasileira. No entanto, a pandemia chega com intensidade diferente  em corpos, grupos sociais e regiões específicas, como corpos periféricos e indígenas. No que diz respeito a região da grande Dourados, marcada pelo espaço transcultural e conflitivo entre as aldeias e as cidades, entre centro e interior do estado e do país, a pandemia mostra um contexto de vulnerabilidade da região e dos povos. No Brasil, há aumento vertiginoso de casos do COVID-19 em Terras Indígenas, como consequência do extrativismo e da ação criminosa de ruralistas. Nas principais cidades do estado do Mato Grosso do Sul, pessoas ainda circulam em um fluxo intenso durante o dia, muito devido ao fato de grupos de comerciantes insistirem em continuar com os serviços, bem como outras categorias de empresários, que colocam muitas pessoas em perigo de contaminação e ameaça de desemprego. Nas últimas semanas, por exemplo, observamos a continuidade do trabalho indígena e não-indígena no corte de cana e nos frigoríficos, assim como a rescisão de 1400 contratos de professores municipais, forçando os/as trabalhadores/as a pagarem pela crise econômica e pela crise do coronavírus.

Para os povos periféricos e indígenas esse perigo é ainda maior, seja pelas históricas desigualdades sociais que os afligem como consequência da expulsão e exploração de seus territórios tradicionais por grandes empresários e latifundiários, seja pela negação do acesso destes à condições dignas de moradia, saúde, saneamento básico, alimentação. Somado a isso, o modo de vida comunitário dos povos se vulnerabiliza. Somente na Reserva Indígena de Dourados (RID), já existem muitos casos de dengue e tuberculose, principalmente entre os Guarani e Kaiowá, com pouco ou nenhum acesso ao sistema de saúde, resultado do sucateamento da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI). Segundo indígenas que trabalham na SESAI, após muita luta conseguiram garantir uma pequena remessa de testes de COVID-19 para a RID, que vinha sendo negada pela prefeitura de Dourados. Por isso, não podemos dissociar o combate à pandemia da luta pela terra, e da luta contra o capitalismo e os grandes responsáveis pela situação em que nos encontramos.

Os impactos da pandemia seguem aumentando e os povos periféricos do campo e da cidade seguem sendo os mais afetados. As consequências da pandemia e as políticas genocidas do Estado agravam problemas antigos, entre eles:

  • a fome e o desemprego nos bairros periféricos, como o Canaã IV em Dourados; as demissões em massa; pessoas em condição de rua/sem teto; violência doméstica;
  • a falta d’água nas aldeias e retomadas, a superexploração da força de trabalho indígena; a expulsão dos indígenas de suas terras tradicionais pelos grandes fazendeiros e empresas transnacionais;
  • a fome que já rondava as aldeias e retomadas indígenas desde o corte de cestas básicas;
  • o ataque por parte dos ruralistas contra áreas indígenas, como a retomada Guarani e Kaiowá de Laranjeira Nhanderu recentemente atacada a tiros por pistoleiros.

Por isso, para evitar o pior e para defender a vida, A FOB-MS se organizou para lançar a CAMPANHA DE SOLIDARIEDADE ENTRE OS POVOS, em apoio aos setores sociais mais fragilizados no momento, mas que também estão resistindo e lutando, como os Guarani e Kaiowá e os bairros periféricos de Dourados. Já realizamos campanha de arrecadações para o Canaã IV de Dourados (bairro de famílias de trabalhadoras domésticas), bem como o levantamento de sementes crioulas para áreas de retomadas, com intuito de realizar projetos conjuntos com as comunidades de fortalecimento da soberania alimentar. Também já arrecadamos 3 caixas d’água para apoiar as famílias da aldeia Bororo. Neste momento, precisamos expandir não só as arrecadações, mas a soberania alimentar, a autonomia e a auto-organização dos territórios frente a crise do COVID-19, do capital, e da repressão.

As comunidades resistem fortemente por suas redes de solidariedade, de apoio mútuo e de produção de alimentos. Por isso, a coletividade é peça chave desse momento que evidencia as violências estruturais sofridas pelos povos, e nos mostra a urgência de transformar essa realidade cruel. Não temos dúvidas de que outros modos de vida são possíveis e necessários, bem como potência da união solidária e coletiva entre os povos do campo e da cidade, da floresta, dos rios, e de toda multiplicidade de ser e viver existente. Em especial, destacamos a resistência Guarani e Kaiowá, principal povo com o qual caminhamos lado a lado em suas lutas – é a segunda maior etnia indígena do país, com um dos quadros mais graves de histórica violação de direitos e consequências do genocídio, etnocídio e desterro.

Acreditamos na potência da solidariedade entre os povos e por essa razão a campanha deve ser feita não para o povo, mas pelo povo e nunca obterá êxito se não envolver apaixonadamente todas as massas do campo, bem como as da cidade. Da mesma forma, é preciso seguir combatendo os governos e patrões, que com suas políticas de morte, empilham corpo sobre corpo em todos os cantos do país. É o momento de unirmos nossa dor, nossa revolta e esperança para derrubar os assassinos do povo e reverter a crise em luta. Unir a luta dos Guarani e Kaiowá com a resistência do povo periférico das cidades é um importante caminho para preparar a grande rebelião.

Para isso levantamos a CAMPANHA DE SOLIDARIEDADE CAMPO-CIDADE pelas iniciais demandas de:

  • Caixas d’água para aldeia de Dourados e retomadas (preferência por 500 litros);
  • Cestas básicas (para aldeias, retomadas, bairros);
  • Materiais de higiene (máscaras, álcool-gel, sabão, água sanitária, etc.);
  • Sementes crioulas. 

As contribuições podem ser feitas também através de dinheiro (entrar em contato para divulgação dos dados bancários para transferência). 

Para cada período de arrecadação são divulgados os resultados através do blog: lutafob.wordpress.com

SÓ O POVO SALVA O POVO!
TERRA E LIBERDADE!