O assunto não é poder feminino. Nem tampouco a divisão social do trabalho entre homens e mulheres – a mais antiga que existe. Não é sobre anti-macho ou a disputa de poderes entre homens e mulheres. Aliás, estamos aqui para falar do anti-poder no feminismo e como ele combate o machismo. Estamos aqui para falar de como esse anti-poder contribui para minar os estigmas femininos e masculinos no sentido de que nossos rótulos capitalistas e liberais são colocados em xeque.

Estar em quarentena e ser mulher – claro que em ambientes não solitários, em condições que envolvem obrigações para com outros e para com si mesma, mulheres responsáveis e responsabilizadas – envolve a super atenção aos estigmas femininos de produtividade e servidão relacionadas ao gênero: permanecer bela, atraente, ser multifuncional (casa, comida, trabalho, criança e sexy) e estar disponível aos interesses masculinos, sejam eles quais forem. Comportamentos opressivos médios apresentados aqui não são os únicos presentes: há as exacerbações. Super-controles, possessividades, abusos sexuais, físicos e psicológicos são crescentes em tempos de confinamento.

Lembrem-se: a situação de isolamento físico social aumenta a ansiedade em todos os presentes, e cada um tem sua válvula de escape. Rotinas que outrora eram pontuais devido a correria do dia-a-dia, nesta situação, são a máxima, a preponderante. Aquilo que parecia pequeno e era contornado pela mulher por ela entender o machismo de seu companheiro de confinamento, com a convivência integral passa a ser maior, mais forte e mais opressor/explorador.

Há meios – pelo anti-poder – de contornar as situações do comportamento opressivo/explorador médio (ainda bem), e quiçá combater o machismo nas nossas relações. Para os casos de excesso há toda uma rede de ajuda mútua para-estatal e estatal que podem auxiliar você a sair dessa (toda forma de violência doméstica deve ser impelida a parar!). Quando falamos em anti-poder falamos de relações que fogem à máxima dos manuais de relacionamentos onde há qualquer forma de dominação. Não!! Relacionamentos não são baseados em palavras finais, ou no controle da situação. Pare de trazer as dinâmicas de poder do mundo capitalista para seus relacionamentos interpessoais.

A divisão social do trabalho e da educação entre gêneros é a primeira divisão da história da humanidade, o que não significa que sempre seguiu o molde de hoje. Divisões de trabalho podem ser fluidas, cooperativas, associativas e devem ser horizontais. Você e seus companheiros de isolamento não precisam de última palavra ou de uma lista de obrigações suas e deles, precisam de um termo comum que não faça de você uma mistura de Rosie (robô dos Jetsons), Mia Kalifa, Martha Stewart e supermãe. Todas estas funções e atividades podem e devem ser compartilhadas – inclusive o prazer mútuo. Aí vão algumas ideias de formas de fazer isso:

  • Conversem muito, distribuam as coisas conforme a dinâmica de cada um: cada um tem seu ritmo, seu padrão mínimo de higiene e de organização, cheguem ao ponto mais próximo do consenso, mesmo que ele seja transitório. A comunicação não violenta entre vocês é um bom começo;
  • Troquem afeto com as palavras e com gestos: afeto nos ajuda a combater a ansiedade, nos passa segurança. Sejam afetuosos horizontalmente (lembre-se do anti-poder), beijos, abraços, carinhos e tudo que vocês fariam em bons momentos. Fortalece os vínculos de confiança, tolerância e senso de companheirismo essenciais para sobrevivermos bem neste período;
  • Foquem nas discussões, debates com efeitos positivos: conversar sobre o que aconteceu naquela festa de 2008 não vai ajudar vocês a manter uma relação de anti-poder. Não estamos no momento de que qualquer um possa cobrar do outro – especialmente de nós mulheres – sobre comportamentos fora do confinamento. É o momento de ter conversas que sejam objetivas sobre o agora, divertidas e que não lhe atribuam mais obrigações. Diga não aos debates que trazem multitarefas. A vida do confinamento já é intensa o suficiente para você se sentir sufocada pelas obrigações coletivas;
  • Falem de sentimentos de hoje: falar de tristeza, alegria, medo, ansiedade, saudades e todos os sentimentos sobre o agora nos ajuda a lidar com eles. Ouvir nos ajuda a compreender o outro: divida na terapia, com seu bando e com seus companheiros de quarentena (estimule que eles também façam). Não seja o ouvido, seja a voz. Isso os ajuda a ter noção do que é ser você nesse tempo e em como te ajudar (caso você peça/precise);
  • Não espere proatividade de todos: somos criadas para sermos proativas e multifocais. Somos criadas para sermos ‘workaholics’ em todos os ambientes. Se não está rolando fazer algo com o que se comprometeu, peça ajuda. Explique suas dificuldades. Isso não é sucumbir à dominação, é dialogar. Muitas vezes os homens – heteros, homos, bis, cis, trans – não têm o ‘treinamento’ social que temos desde a infância e estão dispostos a ajudar mas não sabem como, o que os faz parecer inertes ou intrometidos com o que estamos fazendo. Pedir ajuda nunca é demais;
  • Tenha momentos e espaços solitários todos os dias: ficar só ajuda a compreender o que está acontecendo com você. Tome um banho demorado, uma brincadeira que te agrada, um livro, uma série só sua, uma dança no espelho, yoga, meditação… O que for confortável e prazeroso para você (Bingo do auto cuidado). Sentir prazer estando só ajuda a lidar com o coletivo, estar junto de alguém é uma escolha (sempre) não uma obrigação, isso é anti-poder;
  • Dividam a vida, mas não fabriquem novas. Momentos de prazer, lazer, sexo e afeto são excelentes para esse período, mas não precisam resultar em compulsões ou gestações. Compulsões devem ser tratadas em coletivo, o sexo não é um escape para a ansiedade. O resultado do sexo pode ser uma gestação, e convenhamos ninguém sabe o que será o pós Covid-19, o acompanhamento de uma gestação neste momento é arriscado (rompe com o isolamento) e não temos ideia de que mundo o rebento receberá para viver. Fora os hormônios! A gestação aguça sensações boas e ruins e não temos escapes externos em isolamento social. Cuide-se. Preserve sua saúde mental e física. Se há um planejamento de gestação com seu companheiro, aguardar o fim da quarentena é uma proposta para ser discutida. A saúde coletiva é o centro das nossas atenções agora, e se tornar grupo de risco para uma série de questões não é nossa melhor opção.

Se há uma crescente na relação de poder dentro de casa procure ajuda. Seja a forma de poder sob você, criança ou idoso. A violência doméstica explodiu neste período de confinamento e alguns elementos externos (como álcool), solidão (fale com seu bando), abstinências (consumo de psicoativos na quarentena ) tiram a sanidade e estabilidade mental e emocional, toda ajuda é bem vinda para seu sofrimento, crise ou angústia. Não se feche, somos um bando, peça ajuda e preservem suas vidas. 🙂

Links de ajuda disponíveis para todos os tipos de violência doméstica:

tocomelas.mapadoacolhimento.org

Acolhimentos estatais: