Apoio Mútuo

Mudanças sérias precisam acontecer

Tag: ação solidária

Manual de Desinfecção Comunitária – Orientações Básicas para Sanitização nos Territórios e Proteção à Vida nas Periferias

Equipe de Desinfecção Comunitária do Comitê de Solidariedade Popular

A Equipe de Desinfecção Comunitária é uma das iniciativas do Comitê de Solidariedade Popular – Covid-19 – Feira de Santana para a proteção da vida de nosso povo nas periferias, levando ações de sanitização para nossos territórios, espaços comunitários e locais de trabalho. Esse Manual de Desinfecção Comunitária com orientações básicas para sanitização nos territórios e proteção à vida nas periferias é voltado para as organizações comunitárias e territoriais autônomas, da maioria negra e das mulheres do povo, organizações de trabalhadores/as e de juventude, e principalmente, para os comitês de solidariedade popular e brigadas de apoio mútuo que se formaram para ajudar nosso povo diante da crise sanitária e social e das políticas genocidas de governos e capitalistas.

O trabalho de sanitização e desinfecção comunitária é parte de uma série de serviços comunitários oferecidos pelo Comitê de Solidariedade Popular através das ações solidárias e parte do programa popular e revolucionário em construção, que relaciona a assistência ao povo pobre e trabalhador e as lutas combativas por direitos e em defesa da vida, que sintetizamos na palavra de ordem ‘Só o Povo Salva o Povo!’, com os processos de auto-organização popular e mobilização de base vinculados a um projeto anticapitalista de emancipação humana, ruptura revolucionária e construção do poder do povo. Questões que começamos a desenvolver no nosso primeiro comunicado “Defenestrar Bolsonaro, criar uma Alternativa Revolucionária de Poder do Povo” (Março, 2020) como um esboço de uma projeto popular-revolucionário e no “Programa pela Vida”, como um programa mínimo e conjunto de propostas locais e medidas sanitárias e sociais necessárias para evitar milhares de mortes em Feira de Santana (Abril, 2020).

Partindo da lógica de servir ao povo de todo coração, a ação de sanitização precisa seguir normas básicas de segurança para evitar intoxicações ou irritações, tanto para quem aplica os materiais de desinfecção quanto para quem frequenta o ambiente sanitizado, assim como, normas técnicas na utilização correta dos produtos saneantes e proporções exatas para garantir sua eficácia na desinfecção. É uma atividade relativamente simples, mas que exige atenção e cuidados, com uma equipe que pode ser composta por três a cinco militantes com uma preparação técnica básica sobre os equipamentos e materiais, sendo dois ou três responsáveis pela sanitização e uma ou duas pessoas responsáveis pela logística e apoio da equipe.

É preciso trabalhar com todos os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) necessários e aplicar a sanitização com os materiais sanitários devidos para cada ambiente. A formação das equipes de desinfecção pode ser feita a partir de parcerias com organizações populares e financiadas a partir de cotizações e apoio de sindicatos e entidades, ou através de campanhas solidárias e seleções de entidades de direitos humanos, para cobrir os custos com materiais e logística. O serviço de sanitização também pode ser oferecido na forma de cooperativa de trabalho e prestadora de serviços particular, seguindo as regras sanitárias e legais para gerar renda para os militantes e organizações envolvidos nesse trabalho.

Aqui explicamos de forma resumida o processo para a formação de uma equipe comunitária de desinfecção, seu funcionamento e dinâmica comunitária, os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) necessários, os materiais sanitários que podem ser usados em cada ambiente e as questões gerais que envolvem esse tipo de iniciativa comunitária.

EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO E SANITIZAÇÃO

Os EPIS necessários para a ação que indicamos são:

  1. Respirador semi-facial reutilizável com cartuchos químicos para vapores orgânicos e gases ácidos;
  2. Macacão de segurança para proteção química com capuz;
  3. Óculos de proteção incolor;
  4. Luvas de proteção em látex descartáveis;
  5. Botas de PVC;
  6. Protetor facial em acrílico, que é opcional.

As bombas pulverizadoras podem variar para cada objetivo e ambiente de sanitização, indicamos usar pulverizadores costais de 20L que podem ser manuais ou elétricos para ambientes externos como ruas, praças, feiras, portões, etc., sendo uma bomba usada para cada tipo de material. Bombas pulverizadoras menores manuais de 5L servem para ambientes internos, e bombas de 2L, por exemplo, são necessárias para desinfetar todos os EPIs com Álcool 70% ao fim de cada ação de desinfecção, antes de retirar o macacão e demais equipamentos de proteção com segurança.

Os custos para garantir dois equipamentos completos e os materiais necessários envolvem em média um custo de R$ 1.200,00, podendo variar principalmente pela opção do respirador ou máscara de proteção escolhida e das bombas pulverizadoras.

Produtos e orientações para desinfecção

As bombas de pulverização podem ser manuais, que tem um valor mais baixo, ou automáticas, que custam normalmente mais que o dobro das manuais. Optamos por bombas manuais, mas para grandes trabalhos de desinfecção como em todo um bairro, um pulverizador elétrico é mais indicado. Cada bomba deve ser usada para um produto de desinfecção. É fundamental utilizar produtos saneantes regularizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para garantir sua eficiência e evitar riscos à saúde. O Hipoclorito de sódio é o material mais barato e pode ser usado para sanitizar ruas, calçadas, paredes, praças, etc. sendo feito a partir da diluição de água sanitária com concentração de princípio de cloro ativo entre 2% e 2,5% em água potável para gerar o ácido hipocloroso (HClO) com concentração de 0,5% de cloro ativo (podendo variar até no máximo 1,0%), que é capaz de matar o Sars-CoV-2.

É preciso atenção e cuidado ao lidar com os saneantes, assim como seguir todas as normas técnicas de utilização e diluição dos produtos. Além do Hipoclorito de sódio a 0.5%, diversos outros saneantes podem ser utilizados para eliminação de vírus como Alvejantes contendo hipoclorito (de sódio, de cálcio) a 2,0-3.9%, Iodopovidona a 1%, Peróxido de hidrogênio a 0.5%, Ácido peracético a 0,5%, Quaternários de amônio, por exemplo, o Cloreto de Benzalcônio 0.05%, Compostos fenólicos e Desinfetantes de uso geral com ação viricida. Além da proporção correta, cada saneante deve ser usado em determinadas superfícies, com a maioria não sendo indicados para contatos com a pele humana, animais e plantas. Ao fim deste manual indicamos sites com referências técnicas confiáveis e/ou oficiais, e sugerimos que as equipes de desinfecção destaquem sempre uma ou duas pessoas para se aprofundar nos estudos técnicos e químicos sobre os produtos e suas aplicações, assim como, procurar a assistência de profissionais da área para as orientações devidas.

É importante pontuar aqui e deixar claro também para a população nas ações de desinfecção que a sanitização não substitui a necessidade de proteção contra o Coronavírus, para evitar uma falsa sensação de segurança, devendo-se sempre frisar a importância da utilização correta das máscaras de proteção, da higienização frequente das mãos e de todos os produtos e objetos que entrem em casa e a própria higienização do interior das casas, das roupas, sapatos, sandálias, bolsas, etc.

Não existem comprovações científicas específicas sobre a ação biocida dos saneantes contra o Sars-CoV-2, que é um Coronavírus encapsulado, composto por uma única cadeia de RNA e com capacidade de persistir em diferentes tipos de superfícies. Por conta da sua aparição recente, existe apenas uma comprovação científica genérica sobre a eficácia viricida dos produtos saneantes usados corretamente contra vírus encapsulados como outros coronavírus comparáveis, e também contra o Adenovírus, Influenza H1N1, Influenza H5N2, Poliovírus e Vaccinia. Existe, ainda assim, um consenso em relação à importância da desinfecção de superfícies feita de forma correta para enfrentar a contaminação da Covid-19. Apenas o Álcool 70% regularizado em gel ou líquido é indicado para a utilização e contato com a pele, as alternativas (como a diluição do Hipoclorito de sódio a 0.5%, para uma concentração bem mais baixa de 0,05%) devem ser usadas apenas em casos de necessidade.

Em nossa experiência de desinfecção optamos por usar junto ao ácido hipocloroso (HClO), o Quaternário de Amônio de 5ª Geração, que é um composto químico recomendado pela Anvisa, utilizado internacionalmente, possuindo baixa toxicidade e não é corrosivo, podendo ser usado em superfícies metálicas, diferente do Hipoclorito de sódio que não deve ser usado em estruturas metálicas. É um desinfetante de nível intermediário cuja ação biocida pode deixar o ambiente desinfetado por dias ou até meses, sendo bem específico para organismos-alvo, afetando apenas vírus, bactérias e fungos, e amplamente utilizado para higienização e desinfecção de ambientes e superfícies. Além disso, apresenta uma excelente relação custo-benefício, devido à alta diluição do produto original. O Quaternário de Amônio de 5ª Geração que será utilizado nas ações deve seguir à risca as indicações de proporção indicadas na embalagem ou bula, existem diversas marcas e variações. Outros materiais à base da Amônia quaternária que são específicos para ambientes com animais também podem ser usados, assim como os produtos à base de PAA (Ácido peracético), Peróxido de hidrogeno ou os Compostos fenólicos.

Questões gerais

É importante observar que a aparição do Sars-CoV-2 é nova, por isso, a todo o momento novas pesquisas e informações são lançadas, algumas às vezes desmentindo outras. Por trás das questões que envolvem a pandemia existem também os interesses de grandes empresas farmacêuticas, de grandes laboratórios, dos capitalistas e dos governos. É importante o estudo técnico para evitar as informações erradas ou mesmo a reprodução das famosas “teorias da conspiração”, mas é necessário ter claramente a visão de que estamos diante de uma guerra biológica contra os povos do mundo, e que governos e capitalistas não colocam e não colocarão as vidas das pessoas comuns e dos condenados da terra acima do que chamam de interesses econômicos, ou seja, a manutenção das taxas de lucros dos capitalistas e os interesses do mercado financeiro.

Agora, passado o primeiro semestre do início da pandemia, ficou ainda mais provado que governos neoliberais ou controlados por genocidas de extrema-direita são incapazes de promover políticas para enfrentar a contaminação e que estão utilizando abertamente a Covid-19 como uma arma biológica de destruição em massa contra os povos, como é o caso dos centros atuais da pandemia, Estados Unidos e Brasil, governados respectivamente pelos neonazistas Donald Trump e Jair Bolsonaro.

Sambemos que estamos por nossa própria conta e que os gestores da direita e da falsa esquerda que governam nosso país, estados e cidades estão comprometidos com a agenda genocida do capital. A política abertamente criminosa contra o povo adotada pelo governo do miliciano Jair Bolsonaro e todo o seu governo neofascista não podem ser vencidos com acordos de cúpulas entre os partidos da ordem que sustentam essa falsa democracia, filha da escravidão e da ditadura, e apenas com a organização de base, a unidade popular, a ação direta e as lutas combativas radicalizadas nas ruas podemos abrir caminho para a vitória do povo sobre o Estado, o capital, a supremacia branca e o fascismo. Por isso, é necessário partir de uma política consequente e programática de proteção à vida de nosso povo, afirmando de forma intransigente nossa autonomia como organizações do povo e nossa independência de classe, defendendo que apenas um processo de ruptura revolucionária pode pôr fim às nossas desgraças coletivas e a esse sistema de exploração e opressão.

O trabalho de desinfecção comunitária é parte desse esforço de servir ao povo, para nos mantermos vivos e poder enfrentar as bestas que estão no poder, e que no caso do nosso Comitê de Solidariedade Popular se soma as outras iniciativas de apoio mútuo como a produção cooperativa de máscaras de proteção, a entrega dos kits de higiene e limpeza, os almoços coletivos, as rodas de conversa sobre saúde e organização popular e a doação de cestas básicas para setores vulneráveis do nosso povo nas periferias e favelas de Feira de Santana. A ação comunitária permanente, possibilitada pela coragem e abnegação de centenas de lutadores e lutadoras do povo em todo o país tem salvado muitas vidas, controlando a contaminação por Covid-19 em diversas comunidades do Brasil, assim como, a entrega e dedicação de grande parte dos profissionais de saúde, que enfrentam condições precárias de trabalho e colocam em risco cotidianamente suas vidas para salvar outras.

Uma política de solidariedade e arrecadação é necessária para montar as equipes de desinfecção diante das dificuldades que enfrentamos como organizações comunitárias e autônomas que se autofinanciam. É fundamental também preparar militantes tecnicamente e buscar apoio e parceiras com entidades, ter uma assessoria para elaboração e aprovação de projetos, fazer a comunicação social e a gestão financeira. É necessário utilizar todos os meios possíveis para conseguir recursos, mantendo sempre nossa autonomia política e rejeitando a tutela de partidos, empresas e outras instituições, assim como, o oportunismo eleitoral aflorado ainda mais em ano de eleições burguesas. Fazer o que os governos não fazem e tornar cada vez mais real nossa consígnia ‘Só o Povo Salva o Povo!’, ocupar o lugar vazio deixado pelo Estado na assistência social, mostrando na prática nossa capacidade enquanto povo organizado de construir uma nova sociedade, convencendo pelo discurso e arrastando pelo exemplo a maioria do nosso povo para o projeto popular e revolucionário, apresentando como horizonte uma ruptura anticapitalista que possa repartir o trabalho, a riqueza e o poder, organizando os serviços públicos e a produção através da autogestão.

Quanto as questões jurídicas e legais que envolvem a sanitização é importante conhecer todas as normas da Anvisa e seguir as recomendações dos órgãos de vigilância sanitária e epidemiológica do município, evitando qualquer tipo de criminalização ou descrédito do serviço comunitário, que deve ser tratado da forma mais profissional possível. Essas observações jurídicas e institucionais devem ser seguidas à risca caso a ação comunitária das equipes de desinfecção seja associada de forma paralela a uma prestadora de serviços particular de sanitização (como uma cooperativa de trabalho), forma pela qual as equipes podem conseguir recursos para remunerar militantes pelo trabalho e a ação comunitária pode ser autofinanciada.

Este Manual de Desinfecção Comunitária, com orientações básicas para sanitização nos territórios e proteção à vida nas periferias é uma contribuição do Comitê de Solidariedade Popular para as demais organizações populares e combativas, comitês de solidariedade e brigadas de apoio mútuo e que estará sempre em processo de revisão, atualização e aberta à sugestões.

Resistência é Vida! Venceremos!

Referências:

Apoie o comitê de solidariedade popular:

Apoie a nossa Equipe de Desinfecção Comunitária e demais iniciativas do Comitê de Solidariedade Popular – Covid-19 – Feira de Santana através da nossa Campanha Favela Viva doando qualquer valor em Banco do Brasil – Agência 4481-4 – Conta Corrente 8068-3. Contatos conosco podem ser feitos pelo whatsapp ou telegram em 75.98107-5552 ou por mensagem no facebook e instagram em @casadaresistencia.

Como Reproduzir Ações Solidárias na sua Quebrada – E cozinhar para 55 pessoas!

DICAS PARA REPRODUZIR AÇÕES SOLIDÁRIAS NA SUA QUEBRADApor Coletivo Kasa Invisível

O apoio mútuo é fundamental para a organização popular em tempo crises, como a pandemia de COVID-19, mas também para a transformação social. Reunimos algumas dicas para quem pretende reproduzir ações solidárias para distribuir alimentos e itens de higiene para pessoas em maior vulnerabilidade. Descentralize, difunda e mobilize outras pessoas e grupos. Solidariedade não é caridade, é ação direta e apoio mútuo!

➯ Reúna pessoas (de 3 a 6) que se solidarizam com a proposta e assumam o compromisso;

➯ Defina como será a atuação e o que podem oferecer (rango, cestas básicas, roupas, cobertores, etc.);

➯ Crie/acione sua rede de apoio, coletivos, ONGS’s, pastorais, movimentos, sindicatos e pessoas que podem apoiar mesmo que diretamente nas ações, podendo ajudar com grana ou doações de materiais;

➯ Escolha um ponto de encontro, um local para receber e processar as doações, preparar o rango e um número máximo de pessoas para estar no ambiente de forma segura, com máscaras e sem causar aglomeração, respeitando uma distância de alguns metros;

➯ Pense no alcance possível para a ação e nas questões logísticas, dia, hora, quem faz o quê, periodicidade;

Na Kasa Invisível, temos feito kits de higiene com doações de máscaras, água, sabão, escova e pasta de dente, absorventes e panfletos informativos sobre cuidados na pandemia, as medidas de higiene básicas e sobre o auxílio emergencial. Junto desse kit, entregamos também uma marmita. Abaixo, uma receita de feijoada vegetariana e de como montar uma ação de distribuição.

COMO COZINHAR PARA 55 PESSOAS – 50 marmitas + 5 amigues preparando

Utensílios necessários:

☼ 1 tábua, 1 faca, 3 colheres grandes, 1 concha.3 bacias grandes.2 panelas grandes e 1 caldeirão.3 panelas de pressão 4,5L
Receita e preparo:
(arroz, farofa de legumes e feijoada veg)

☼ 5kg de arroz.2kg de farinha de mandioca.3kg de feijão.tempero pronto (alho&sal).3 abobrinhas médias.3 berinjelas médias.12 batatas médias.3 beterrabas médias.2 cebolas grandes.8 cenouras médias

Farofa:

Numa das panelas grandes: óleo, meia cebola até dourar, tempero pronto, adicione a metade das cenouras e das beterrabas raladas, frite um pouco, adicione 1kg de farinha de mandioca e mexa até ficar uniforme. Repita o processo com o outro 1kg de farinha e cebola e legumes ralados. Armazene na bacia grande até a montagem das marmitas.

Feijoada Vegetariana:

Deixe de molho o feijão 10 a 12h antes. Troque a água e cozinhe 1kg em
cada panela de pressão.No caldeirão: óleo, uma cebola picada até dourar, tempero pronto, adicione as berinjelas, abobrinhas e as batatas em cubos, refogue até que cozinhe um pouco, adicione o feijão cozido e água até cobrir e ferva até terminar de cozinhar os legumes. Pode ser adicionado aroma de fumaça, louro e outros temperos.

Arroz:

Numa das panelas grandes: óleo, tempero pronto até dourar. Adicione arroz até 1/3 da panela, água até 3/4 da panela, aguarde secar, adicione mais água se necessário. Repita o processo até terminar os 5kg de arroz. Armazene nas bacias grandes até a montagem das marmitas.

Embalagens:

✰ 50 marmitex de aprox. 700g-50 colheres-50 sacos de chup-chup
✰ Embale as colheres individualmente com os saquinhos de chup-chup.

Montagem marmitex:

♥ 2 e 1/2 colheres grandes de arroz.2 conchas de feijoada.2 colheres de farofa de legumes*sugerimos a farofa sobre o feijão para absorver um pouco do liquido e não vazar na distribuição.

Boa sorte! Compartilhe sue experiência e estimule outras pessoas a partirem também para a ação.

Nos vemos nas ruas e em segurança.
Isolamento não é inação!

Resistência é atividade essencial!

Resistindo em uma Ocupação no meio da Pandemia

Meu nome aqui é Z. Vivo em Belo Horizonte, em uma ocupação chamada Kasa Invisível. Como todas as pessoas em quase todos os cantos do mundo, estamos em isolamento em casa, praticamente sem trabalhar, tentando encontrar formas de manter nossa saúde, nossas vidas e as das pessoas que amamos. Nessa jornada, estamos descobrindo como adaptar nossas práticas, ampliar nosso poder de atuação tanto dentro da ocupação como na relação com nosso bairro, nossa comunidade e as redes de apoio que nos cercam. Essa é uma tentativa de relato pessoal sobre essa experiência e as lições que é possível tirar dela.

A tal da ficha caindo

Ainda lembro exatamente do momento que minha ficha caiu e me dei conta de que estamos em um momento muito sério, algo que não vimos na nossa geração e nem na dos nossos avós. Estava com minha companheira, que também faz parte do coletivo gestor da Kasa, em uma lanchonete tomando nosso último milkshake em um espaço público antes da pandemia ser oficialmente decretada e as políticas de isolamento começarem a ser implementadas em nossa cidade. Esperávamos nossa bebida enquanto falávamos sobre o possível adiamento do aniversário de 7 anos da ocupação, um evento sempre especial para nós por celebrar mais um ano segurando esse chão sob nossos pés, que esse ano contaria com relatos de participantes das revoltas no Chile e um vídeo-debate com membros de diferentes torcidas organizadas de esquerda de Belo Horizonte sobre a participação das torcidas no processo de lutas chilenas. Ou seja, algo com muita potência organizado com muito carinho e cuidado.

Cartaz anunciando adiamento do aniversário de 7 anos da ocupação Kasa Invisível.

Creio que o que me sacudiu, naquela conversa, foi ouvir da minha companheira que em dois dias todo o prédio onde ela trabalha iria ser fechado e os funcionários passariam a trabalhar de casa. Até então, para mim, a possibilidade de ver comércios fechados, pessoas de máscara nas ruas, estado de calamidade decretado e toda aquela cena apocalíptica era algo distante. É como pensar nas imagens dos noticiários que parecem sempre distantes: uma rua na China onde todos usam máscaras por conta da poluição ou de uma nova doença infecciosa ou as cenas de caos e escassez na Venezuela. Tudo isso soa tão distante quanto aquela imagem de tropas estrangeiras ocupando um país minúsculo no Oriente Médio.

Nesses momentos vem a necessidade de lembrar que vivemos em um mundo de guerras e crises permanentes, onde momentos e locais que parecem “pacíficos” e “em ordem”, são apenas um enclave, um território limitado e cada vez mais raro em um planeta coberto de degradação, poluição, brutalidade, desigualdade e desespero. A crise é a forma de governo predominante e a guerra é o estado perpétuo para a maioria da população e dos seres vivos soterrados pelo avanço do capitalismo sobre o planeta, indo do fundo dos oceanos e até o cosmos. As pessoas devem saber que são parte de uma minoria muito sortuda quando não estão no caminho de uma barragem se rompendo com lixo tóxico da Vale ou na mira dos fuzis das polícias que matam como pandemias – seja sob um governo de Lula ou de Bolsonaro.

Foi curiosamente triste perceber, logo no início, que o tal distanciamento social não mudou muito minha rotina. No início, costumava brincar que já vivia isolado em casa, sem renda e com medo do futuro da humanidade antes de ser uma tendência mundial. Na real, tirando meu trabalho como autônomo ou fazendo alguns bicos e as atividades culturais da ocupação e outras atividades políticas, meu cotidiano não mudou muita coisa. Mas foi chocante mesmo me dar conta de que essas notícias bizarras saídas literalmente do outro lado do mundo, levariam ao cancelamento do nosso evento naquele final de semana e paralisar não só as atividades políticas, mas toda a vida como a conhecemos. Logo em seguida, passamos a refletir sobre como isso colocaria em risco nossos pais, avós, as crianças da nossa ocupação, pessoas em situação de rua e todos que amamos e estão ainda mais vulneráveis que nós. As previsões de saturação do sistema de saúde e de possível colapso do sistema todo pareciam saídas de um filme sobre fim do mundo.

Logo, passamos a refletir em conjunto quais seriam os efeitos disso e como nos preparar para o momento. Morar em uma ocupação significa não perder um dinheiro que jamais voltará pagando aluguel, mas, muitas vezes, também significa que você vai gastar grande parte do seu cotidiano gerindo, defendendo o espaço e cuidando do imóvel em si, consertando o que está quebrado, melhorando as estruturas que toda casa abandonada por décadas precisa melhorar.

O fato de não nos reunirmos mais na ocupação e do espaço suspender todos os seus eventos, não recebermos mais movimentos e sindicatos que usam a Kasa como espaço de reunião, tudo isso é um choque muito grande na rotina de todos nós. Todo o senso de comunidade parece um pouco mutilado quando não nos vemos, nos abraçamos, compartilhamos um café e um lanche nem nos ajudamos nas tarefas cotidianas. Parte do coletivo não mora na ocupação. Conversas por mensagens ou videoconferência podem ser úteis, mas nada substitui o real contato humano, os efeitos biológicos das peles que se tocam e dos olhares que se cruzam.

Porém, como dissemos em uma de nossa notas oficiais: isolamento social é necessário mas não significa inação. É preciso agir! Não podemos sucumbir esperando que as autoridades façam algo por nós porque nossa vida e nosso bem-estar nunca foi uma prioridade para elas. Quando vemos uma situação de conflito ou crise, é urgente tomar partido. Como dizem por aí: “de um jeito ou de outro, um dia todas usaremos máscaras” – seja pra nos esconder de doenças ou da poluição e viver sob o medo; ou para fazer como zapatistas, primera lineas, black blocs ou batalhões internacionalistas em Roajva, que escondem suas identidades para partir para a luta com ainda mais força.

Coletivos, espaços e comunidades: pontos de apoio e de partida

Em momentos como esse fica claro qual é a importância da construção de centros sociais, de movimentos, coletivos e comunidades: estaríamos numa posição muito pior nessa pandemia se não estivéssemos em uma ocupação, gerida coletivamente, sustentada por uma comunidade que se espalha em rede pela cidade e por diferentes partes do país e do mundo. O impacto causado pela necessidade de se isolar em casa, sem trabalhar ou qualquer seguridade social é muito pior se fôssemos obrigados a pagar aluguel sem ter um emprego decente. Muitos de nós recebem Bolsa Família e estão ainda na espera do Auxílio Emergencial, que é como mais uma migalha dos governantes que tudo tiram de nós, mas são garantias mínimas que não podemos abrir mão. Relações em comunidade e o senso de coletividade é fundamental para conseguir nos manter com vida e com saúde em meio a uma crise sanitária que, com certeza, levará a uma crise política e econômica.

Saída para mais um dia de ação solidária com população em situação de rua e trabalhadorxs da região central.

Anos atrás, alguns de nós da ocupação trabalhávamos em uma loja cooperativa. O imóvel era alugado e morávamos também de aluguel em uma casa não muito longe dali. Ou seja, para viver e para trabalhar eram necessários pagar dois aluguéis. Se ainda estivéssemos nessa situação, provavelmente estaríamos muito piores e em total desespero pensando que poderíamos sofrer um despejo de dois lugares diferentes. Ocupar, além de garantir pela ação direta que tenhamos onde morar, serve para mostrar a todas as pessoas que existe muita casa sem gente e muita gente sem casa. Os antigos proprietários do imóvel que ocupamos, por exemplo, possuem dezenas de outras casas, terrenos, prédios em que nenhum deles habita, apenas buscam especular e lucrar num futuro distante enquanto as casas, como a que hoje habitamos e várias outras, se deterioram vazias e sem cuidados. Se dependesse deles, estaríamos na rua agora, em meio à pandemia, enquanto eles continuam com a propriedade de vários imóveis vazios.

Ocupar é questionar essa lógica promovendo mudanças na prática. Centros sociais radicais abrem caminho para novas relações de respeito e confiança com toda a comunidade. Essa confiança que permite a esses espaços reunir recursos, materiais e até força de trabalho. Toda a nossa ocupação foi erguida com base nisso: pessoas confiando no projeto e nas pessoas envolvidas e nos dando seu apoio doando materiais, seu tempo de trabalho, seus conhecimentos ou até dinheiro. E os frutos disso é um espaço mais estruturado, rico em atividades e possibilidades, que é aberto e compartilhado com toda a comunidade. Da geladeira, aos fios que a fazem funcionar, das cadeiras aos livros da biblioteca e suas prateleiras, chegando até o projetor que nos permite exibir filmes gratuitamente, tudo foi doado e confiado à Kasa e ao uso comum. Sem falar no tempo de membros e colaboradores que gastaram horas em mutirões instalando fios, canos, batendo piso, carregando centenas de sacos de entulho, pintando paredes e cozinhando o tropeiro vegano que alimenta cada de mutirão ou mesmo editando vídeo e artigos sobre a Kasa. Um último exemplo simbólico recente: uma família que deixou sua casa no interior de Minas Gerais por estar numa área de risco de rompimento de mais uma barragem da Vale e agora vive há mais de um ano em um hotel bancado pela mineradora, reuniu mantimentos e sabonetes do hotel para compormos dezenas de novos kits de higiene para distribuirmos – nada mais justo que obrigar a Vale a pagar por mais esses insumos. A trágica ironia das tragédias que se sobrepõe e abrem brechas para pequenos gestos solidários.

Dia de produção na cozinha da Kasa Invisível.

Essa caminhada e o ponto em que nos encontramos hoje, foram construídos com muito trabalho organizativo e com muito apoio externo. O planejamento, a organização prévia e a construção cotidiana da luta nos permitiu construir coletivamente esse momento de segurança para as famílias que aqui vivem terem um porto (relativamente) seguro nessa crise sanitária. É desse ponto de organização local que todos precisamos partir: do nível de base, de um imóvel que é lar, mas também é centro social, para o nosso entorno, nossa rua, nosso bairro e nossas redes de apoio com outras organizações e espaços.

Nos posicionando nos conflitos de interesses entre os que tem e os que não tem, fica nítido o quanto abstrações autoritárias como a propriedade privada, o mercado (seja imobiliário ou qualquer outro) servem apenas para beneficiar quem já é rico e vive dos lucros, juros, dividendos e do trabalho dos outros. Ao mesmo tempo que beneficiam poucos, essas abstrações sem sentido prejudicam diretamente a maioria, sugando os recursos de quem precisa viver de salário em salário (se tiver a sorte de ter um!) ou de bico em bico em uma economia precarizada. A lei e a polícia vão garantir que quem possui muitos imóveis, recursos ou dinheiro continue concentrando tudo isso mesmo que milhões estejam com fome, sem casa e sem saúde. A única coisa pior do que estar preso em um trabalho e em uma moradia degradante, é estar preso fora desse mercado, sem acesso a qualquer trabalho ou moradia.

Se um sistema não funciona para todos, é preciso derrubá-lo

“Todos tinham compreendido que a liberdade é uma mentira, quando a maioria da população está condenada a uma existência miserável, quando, privada de educação, de lazer e de pão, ela se vê, por assim dizer, destinada a servir de degrau para os ricos e poderosos. A revolução social apresenta-se, portanto, como uma consequência natural e necessária da revolução política. (…) A opressão de um povo ou mesmo de um simples indivíduo, é a opressão de todos, e não se pode violar a liberdade de um ser sem violar a liberdade de todos.”

Mikhail Bakunin, em Apelo aos Eslavos, 1848

Se um sistema econômico e político que deveria garantir moradia e recursos básicos não funciona para todos em um momento de crise porque alguns tem muito e outros não tem nada, fica óbvio que esse sistema não funciona e deve ser substituído por algo melhor. O mesmo vale para um sistema de saúde: se ele depende do dinheiro que cada pessoa pode pagar individualmente e não cuida de todo mundo que precisa, porque nem todo mundo tem o dinheiro para pagar, então ele é um fracasso. No momento em que entramos numa pandemia em escala mundial, onde a saúde de cada pessoa depende da saúde de todas as outras pessoas, vemos como esse modelo é injusto. Os milhões de doentes e os mortos que chegam a milhares por não poder ser atendidos nos fazem pensar em todas as pessoas que morrem diariamente nas filas dos hospitais lotados e sucateados da rede pública no Brasil, ou por não terem a fortuna necessária para entrar nos hospitais nos Estados Unidos, que são os mais avançados do mundo mas não estão acessíveis para a maioria dos seus cidadãos.

Nesse momento, a máxima anarquista atribuída a Bakunin, de que “ninguém é livre até que todas as pessoas sejam livres”, se torna verdadeira quando analisamos pelo lado da saúde: ninguém está a salvo da pandemia de Covid-19 até que todas as pessoas estejam também a salvo. A minha saúde nunca dependeu tanto da certeza de que todos ao meu redor também estejam saudáveis. Enquanto não existir vacina e imunidade, seremos lembrados de que uma pessoa doente é literalmente o risco de todas estarmos doentes e de que milhões podem morrer de uma forma terrível e solitária. Se isso nos diz algo, é que devemos encarar todas as coisas que ameaçam nossas vidas sob essa ótica: ou é para todos ou não serve. Se alguém não tem acesso garantido a moradia, comida, saúde, liberdade e bem-estar, devemos todos considerar sua miséria como uma ameaça a todas as pessoas e à sociedade. Ou nossa sociedade está organizada para garantir a todos a liberdade e o acesso a recursos necessários à vida, ou ela está organizada de forma a garantir que uma minoria privilegiada possua e administre os recursos, enquanto a vasta maioria não tem nada a não ser salários e migalhas estipuladas por essa minoria. No caso do Brasil, onde 6 bilionários possuem mais riqueza que 100 milhões de brasileiros juntos, sabemos muito bem qual é o nosso caso.

Montando os kits

Precisamos garantir que tenhamos saúde, mas que todas as pessoas ao nosso redor também tenham. Se elas estão bem, mantemos a tal curva achatada, não sobrecarregamos os hospitais, não estressamos ainda mais profissionais de saúde que se arriscam todos os dias para salvar vidas e ganhamos tempo até que alguma solução, uma vacina, um tratamento, sejam criados.

A proposta da Kasa sempre foi servir de apoio comunitário, oferecendo atividades, cursos, oficinas, música, artes, biblioteca para todas as pessoas, sempre com acesso livre e gratuito. Por alguns anos, mantivemos uma Loja Grátis na Kasa, que por vezes era montada na calçada, fornecendo roupas, calçados, ferramentas, eletrodomésticos, livros e vários outros materiais doados para a Kasa e disponíveis para quem quisesse pegar. Uma das principais funções da loja grátis era manter um vínculo e um ponto de apoio entre a ocupa e a população de rua da região. Muitas pessoas pegavam diariamente roupas, cobertores e o que mais precisassem. Desativamos a loja temporariamente, pois precisamos de espaço para instalar uma cozinha cooperativa onde moradores da Kasa podem produzir comida para vender e ter uma renda sem precisar trabalhar fora. Mas os anos em que ela esteve ativa serviu para conhecermos muitas pessoas e estabelecer alguma relação de apoio mútuo. Pensamos que retomar relação e uma forma de apoio à população de rua seria fundamental nesse momento. Assim, inspirados por ações de outros coletivos e movimentos de outros países como EUA e Chile, resolvemos bolar uma campanha para fornecer comida e kits de higiene gratuitos para pessoas em nosso bairro.

Dentro um raio de 5 quarteirões, existem ao menos outra duas ocupações recentes e com menos visibilidade. Além disso, aqui no centro da cidade, existe uma população crescente em situação de rua. Uma vez que consolidamos tanto visibilidade quanto a confiança de nossa comunidade, julgamos ser necessário usar desses elementos para promover algum apoio que beneficie os membros mais vulnerabilizados em nossa vizinhança.

Primeiro dia de entrega dos kits e da marmita na Praça Raul Soares, em 23 de abril de 2020.

Reflexões em meio à luta contra os efeitos da pandemia

Falando agora um pouco da prática nesses últimos meses, rapidamente engolimos a frustração de adiar indefinidamente o aniversário da ocupação e repensamos nossa dinâmica. Suspendemos todos os eventos e visitas de todos que não são moradores ou membros do coletivo. Anunciamos nossa nova política para o momento e inspirados por ações que vimos em diferentes partes do mundo, especialmente o pessoal do Bike System, com ações na Cracolândia em São Paulo e a Casa da Resistência, em Feira de Santana na Bahia. Tanto a estética e as estratégias para o chamado foram uma referência para nós.

Kits com o bilhete informativo.
Montagem das marmitas com a cooperativa Botequim Vegano.

Fizemos uma imagem e uma nota da campanha e difundimos nas mídias sociais, e-mails e canais em aplicativos de mensagem. Em poucas semanas conseguimos angariar cestas básicas, sabão, água, máscaras descartáveis e de pano e dinheiro para comprar outros insumos como embalagens e ingredientes para produzir as marmitas que vão junto do kit. Membros da Kasa Invisível conseguiram máquinas de costura emprestadas e passaram a produzir também máscaras de pano. Um brechó vizinho doou retalho, outras máscaras chegaram de doação por correio. Vários colaboradores produziram outras e também doaram. Assim, iniciamos a distribuição semanal dos kits e das marmitas em nossa região, que vão junto com um bilhete com dicas de higiene e informações sobre como recorrer ao Auxílio Emergencial de R$600,00. Entregando nas ruas ouvimos muita demanda por escovas e pasta de dente, então, após uma contribuição da Pastoral de Rua, conseguimos adicionar uma centena desses itens em nossa distribuição

Com a pandemia, ficou gritante o desamparo de pessoas que estão na rua e dependiam da relação com comerciantes e lojistas para catar material reciclado, conseguir comida e outras doações. Mesmo o Auxílio Emergencial continua uma promessa por cumprir, pois as opções para conseguir são ter um celular ou acesso à internet, o que parece uma piada quando sugerido para a população em situação de rua. Mesmo assim, tentamos orientar e avisar as pessoas que esse auxílio existe e é direito delas conseguir acesso a ele.

Logo de início, conhecemos outros projetos atuando na mesma região com uma frequência bem maior que a nossa, fazendo distribuição diariamente. Poucas pessoas do nosso coletivo tinham participado de ações sistemáticas de apoio à população de rua e suas experiências também contaram. Como fazemos desde o primeiro prego batido no primeiro mutirão, registramos cada passo em vídeo e fotos que fomos compartilhando em nossas mídias e arquivando. O coletivo Antimídia se ofereceu para produzir um breve vídeo para divulgar a ação e inspirar novas ações em outros lugares. A cada dia, outras formas de solidariedade começam a surgir. Camaradas envolvidos em outras ações maiores com organizações e empresas conseguiram canalizar dezenas de cestas básicas a serem entregues tanto aqui na Kasa Invisível como na Ocupação Guarani Kaiowá, uma grande ocupação em Contagem, região metropolitana de BH. Uma cooperativa familiar de pães doou dezenas de pães artesanais, amigos e familiares trouxeram o resultado de suas colheitas em terrenos ou quintais e a Kasa se encheu de tomates, mandioca e cestas básicas que recebem a mais. Roupas também começaram a chegar e, junto das cestas e outros alimentos, fomos direcionando a maior parte para as ocupações vizinhas que, como mencionei, não contam com um rosto público como a nossa. Em um tempo relativamente curto, uma época de isolamento, de medo da escassez e de incertezas passou a ser uma época de conexões, novos e antigos laços e, principalmente, de fartura e de partilha.

Conclusão: mudanças sérias precisam acontecer

“Uma parte desta sociedade tem absoluto interesse em que a ordem siga reinando; a outra, em que tudo se derrube o mais rápido possível. Decidir de que lado está é o primeiro passo.”

Ai Ferri Corti

O momento que vivemos não é um capítulo descontinuado na história do mundo. Ele é produto da exploração capitalista e do agronegócio, da domesticação e da devastação da vida animal e vegetal, do nível cósmico ao microbiológico. As forças autoritárias que aproveitam desse momento para refinar suas táticas e tornar mais brutais suas leis, são as mesmas que já vinham emergindo nas últimas décadas, agora e cada vez mais sob a sombra do populismo nacionalista de direita que engole todos os continentes. Toda crise é uma encruzilhada histórica, é um momento de mudança. Se não usarmos nossas habilidades e nossa capacidade de organização para fortalecer laços comunitários e nossa capacidade organizativa para a luta social, podemos ter certeza que governos, milícias e gangues fascistas estarão fortalecendo seus mecanismos.

Quando falamos sobre como as coisas poderiam ser ou como mudanças deveriam ser aplicadas, as pessoas podem prestar alguma atenção, mas se agimos enquanto falamos, mais pessoas vão prestar a atenção e mais a sério somos levados. Nossos mortos já são incontáveis e muitos ainda estão por vir. É nos cuidando, lutando pela continuidade de nossas vidas e nossas comunidades que vamos cuidar da vida de todos, rua por rua, bairro por bairro, aldeia por aldeia, favela por favela. Desde que entramos nesse imóvel em ruínas, sem piso, teto ou encanamentos, que hoje abriga e nutre vidas e de onde hoje escrevo essas palavras, lembramos e citamos a frase de Durruti na Revolução Espanhola: “Mas nós sempre vivemos em cortiços e buracos nas paredes. Saberemos como arranjar-nos durante algum tempo. Pois não devem esquecer que também sabemos construir. Fomos nós que construímos os palácios e as cidades na Espanha, na América e em toda a parte. Nós, os operários, saberemos construir outros para tomar o lugar dos que forem destruídos. E ainda melhores. Não temos medo de ruínas. Nós herdaremos a terra. Quanto a isso não há a menor dúvida. Os burgueses podem fazer explodir e destruir o seu mundo antes de abandonarem o palco da história. Nós trazemos um novo mundo em nossos corações. E esse mundo está crescendo a cada minuto que passa.

E assim seguiremos, carregando as sementes de um mundo novo, mesmo que caminhando à beira dos vulcões da história.

Não tememos as ruínas porque erguemos tudo que há nesse mundo!

[Vídeo] Kasa Invisível: Apoio Mútuo em tempos de Covid 19 (Belo Horizonte, MG)

Diante da grave epidemia que assola o planeta, iniciativas de solidariedade e apoio mútuo vem se multiplicado.

Na região central de Belo Horizonte, o Coletivo Kasa Invisível tem se articulado semanalmente para arrecadar doações de dinheiro, alimentos, itens de higiene, afim de contribuir com a população de rua do centro de Belo Horizonte, famílias necessitadas e outras ocupações de luta pelo direito a moradia.

O coletivo também tem produzido máscaras de pano, que são distribuídas juntamente a esses kits.

Esse vídeo documenta um pouco desse processo.

É importante seguirmos fortalecendo ações de solidariedade e apoio mútuo e de enfrentamento ao capital, sem esquecermos dos impactos do sucateamento histórico do sistema de saúde pública, desprotegendo a população pobre em benefício de grandes empresários, que observam direitos básicos como mercadoria.

Seguimos apoiando o isolamento social, sem acreditar, no entanto, que isso signifique inação.

Coletivo Kasa Invisível


Um convite de Antimídia

O apoio mútuo é um dos pilares do anarquismo. E é em crises como a pandemia de COVID-19 que ele se faz mais presente e importante. Esse vídeo é um registro das ações de apoio mútuo realizadas pela Kasa Invisível, ocupação e centro social em Belo Horizonte, Minas Gerais.

Esse é possivelmente o primeiro de uma série de vídeos sobre ações de apoio mútuo nos territórios chamados de “Brasil”. Envie você também registros e depoimentos sobre ações semelhantes das quais você ou grupos próximos participam. Entre em contato com a Antimída: https://antimidia.noblogs.org/contato/

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