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Manual de Desinfecção Comunitária – Orientações Básicas para Sanitização nos Territórios e Proteção à Vida nas Periferias

Equipe de Desinfecção Comunitária do Comitê de Solidariedade Popular

A Equipe de Desinfecção Comunitária é uma das iniciativas do Comitê de Solidariedade Popular – Covid-19 – Feira de Santana para a proteção da vida de nosso povo nas periferias, levando ações de sanitização para nossos territórios, espaços comunitários e locais de trabalho. Esse Manual de Desinfecção Comunitária com orientações básicas para sanitização nos territórios e proteção à vida nas periferias é voltado para as organizações comunitárias e territoriais autônomas, da maioria negra e das mulheres do povo, organizações de trabalhadores/as e de juventude, e principalmente, para os comitês de solidariedade popular e brigadas de apoio mútuo que se formaram para ajudar nosso povo diante da crise sanitária e social e das políticas genocidas de governos e capitalistas.

O trabalho de sanitização e desinfecção comunitária é parte de uma série de serviços comunitários oferecidos pelo Comitê de Solidariedade Popular através das ações solidárias e parte do programa popular e revolucionário em construção, que relaciona a assistência ao povo pobre e trabalhador e as lutas combativas por direitos e em defesa da vida, que sintetizamos na palavra de ordem ‘Só o Povo Salva o Povo!’, com os processos de auto-organização popular e mobilização de base vinculados a um projeto anticapitalista de emancipação humana, ruptura revolucionária e construção do poder do povo. Questões que começamos a desenvolver no nosso primeiro comunicado “Defenestrar Bolsonaro, criar uma Alternativa Revolucionária de Poder do Povo” (Março, 2020) como um esboço de uma projeto popular-revolucionário e no “Programa pela Vida”, como um programa mínimo e conjunto de propostas locais e medidas sanitárias e sociais necessárias para evitar milhares de mortes em Feira de Santana (Abril, 2020).

Partindo da lógica de servir ao povo de todo coração, a ação de sanitização precisa seguir normas básicas de segurança para evitar intoxicações ou irritações, tanto para quem aplica os materiais de desinfecção quanto para quem frequenta o ambiente sanitizado, assim como, normas técnicas na utilização correta dos produtos saneantes e proporções exatas para garantir sua eficácia na desinfecção. É uma atividade relativamente simples, mas que exige atenção e cuidados, com uma equipe que pode ser composta por três a cinco militantes com uma preparação técnica básica sobre os equipamentos e materiais, sendo dois ou três responsáveis pela sanitização e uma ou duas pessoas responsáveis pela logística e apoio da equipe.

É preciso trabalhar com todos os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) necessários e aplicar a sanitização com os materiais sanitários devidos para cada ambiente. A formação das equipes de desinfecção pode ser feita a partir de parcerias com organizações populares e financiadas a partir de cotizações e apoio de sindicatos e entidades, ou através de campanhas solidárias e seleções de entidades de direitos humanos, para cobrir os custos com materiais e logística. O serviço de sanitização também pode ser oferecido na forma de cooperativa de trabalho e prestadora de serviços particular, seguindo as regras sanitárias e legais para gerar renda para os militantes e organizações envolvidos nesse trabalho.

Aqui explicamos de forma resumida o processo para a formação de uma equipe comunitária de desinfecção, seu funcionamento e dinâmica comunitária, os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) necessários, os materiais sanitários que podem ser usados em cada ambiente e as questões gerais que envolvem esse tipo de iniciativa comunitária.

EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO E SANITIZAÇÃO

Os EPIS necessários para a ação que indicamos são:

  1. Respirador semi-facial reutilizável com cartuchos químicos para vapores orgânicos e gases ácidos;
  2. Macacão de segurança para proteção química com capuz;
  3. Óculos de proteção incolor;
  4. Luvas de proteção em látex descartáveis;
  5. Botas de PVC;
  6. Protetor facial em acrílico, que é opcional.

As bombas pulverizadoras podem variar para cada objetivo e ambiente de sanitização, indicamos usar pulverizadores costais de 20L que podem ser manuais ou elétricos para ambientes externos como ruas, praças, feiras, portões, etc., sendo uma bomba usada para cada tipo de material. Bombas pulverizadoras menores manuais de 5L servem para ambientes internos, e bombas de 2L, por exemplo, são necessárias para desinfetar todos os EPIs com Álcool 70% ao fim de cada ação de desinfecção, antes de retirar o macacão e demais equipamentos de proteção com segurança.

Os custos para garantir dois equipamentos completos e os materiais necessários envolvem em média um custo de R$ 1.200,00, podendo variar principalmente pela opção do respirador ou máscara de proteção escolhida e das bombas pulverizadoras.

Produtos e orientações para desinfecção

As bombas de pulverização podem ser manuais, que tem um valor mais baixo, ou automáticas, que custam normalmente mais que o dobro das manuais. Optamos por bombas manuais, mas para grandes trabalhos de desinfecção como em todo um bairro, um pulverizador elétrico é mais indicado. Cada bomba deve ser usada para um produto de desinfecção. É fundamental utilizar produtos saneantes regularizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para garantir sua eficiência e evitar riscos à saúde. O Hipoclorito de sódio é o material mais barato e pode ser usado para sanitizar ruas, calçadas, paredes, praças, etc. sendo feito a partir da diluição de água sanitária com concentração de princípio de cloro ativo entre 2% e 2,5% em água potável para gerar o ácido hipocloroso (HClO) com concentração de 0,5% de cloro ativo (podendo variar até no máximo 1,0%), que é capaz de matar o Sars-CoV-2.

É preciso atenção e cuidado ao lidar com os saneantes, assim como seguir todas as normas técnicas de utilização e diluição dos produtos. Além do Hipoclorito de sódio a 0.5%, diversos outros saneantes podem ser utilizados para eliminação de vírus como Alvejantes contendo hipoclorito (de sódio, de cálcio) a 2,0-3.9%, Iodopovidona a 1%, Peróxido de hidrogênio a 0.5%, Ácido peracético a 0,5%, Quaternários de amônio, por exemplo, o Cloreto de Benzalcônio 0.05%, Compostos fenólicos e Desinfetantes de uso geral com ação viricida. Além da proporção correta, cada saneante deve ser usado em determinadas superfícies, com a maioria não sendo indicados para contatos com a pele humana, animais e plantas. Ao fim deste manual indicamos sites com referências técnicas confiáveis e/ou oficiais, e sugerimos que as equipes de desinfecção destaquem sempre uma ou duas pessoas para se aprofundar nos estudos técnicos e químicos sobre os produtos e suas aplicações, assim como, procurar a assistência de profissionais da área para as orientações devidas.

É importante pontuar aqui e deixar claro também para a população nas ações de desinfecção que a sanitização não substitui a necessidade de proteção contra o Coronavírus, para evitar uma falsa sensação de segurança, devendo-se sempre frisar a importância da utilização correta das máscaras de proteção, da higienização frequente das mãos e de todos os produtos e objetos que entrem em casa e a própria higienização do interior das casas, das roupas, sapatos, sandálias, bolsas, etc.

Não existem comprovações científicas específicas sobre a ação biocida dos saneantes contra o Sars-CoV-2, que é um Coronavírus encapsulado, composto por uma única cadeia de RNA e com capacidade de persistir em diferentes tipos de superfícies. Por conta da sua aparição recente, existe apenas uma comprovação científica genérica sobre a eficácia viricida dos produtos saneantes usados corretamente contra vírus encapsulados como outros coronavírus comparáveis, e também contra o Adenovírus, Influenza H1N1, Influenza H5N2, Poliovírus e Vaccinia. Existe, ainda assim, um consenso em relação à importância da desinfecção de superfícies feita de forma correta para enfrentar a contaminação da Covid-19. Apenas o Álcool 70% regularizado em gel ou líquido é indicado para a utilização e contato com a pele, as alternativas (como a diluição do Hipoclorito de sódio a 0.5%, para uma concentração bem mais baixa de 0,05%) devem ser usadas apenas em casos de necessidade.

Em nossa experiência de desinfecção optamos por usar junto ao ácido hipocloroso (HClO), o Quaternário de Amônio de 5ª Geração, que é um composto químico recomendado pela Anvisa, utilizado internacionalmente, possuindo baixa toxicidade e não é corrosivo, podendo ser usado em superfícies metálicas, diferente do Hipoclorito de sódio que não deve ser usado em estruturas metálicas. É um desinfetante de nível intermediário cuja ação biocida pode deixar o ambiente desinfetado por dias ou até meses, sendo bem específico para organismos-alvo, afetando apenas vírus, bactérias e fungos, e amplamente utilizado para higienização e desinfecção de ambientes e superfícies. Além disso, apresenta uma excelente relação custo-benefício, devido à alta diluição do produto original. O Quaternário de Amônio de 5ª Geração que será utilizado nas ações deve seguir à risca as indicações de proporção indicadas na embalagem ou bula, existem diversas marcas e variações. Outros materiais à base da Amônia quaternária que são específicos para ambientes com animais também podem ser usados, assim como os produtos à base de PAA (Ácido peracético), Peróxido de hidrogeno ou os Compostos fenólicos.

Questões gerais

É importante observar que a aparição do Sars-CoV-2 é nova, por isso, a todo o momento novas pesquisas e informações são lançadas, algumas às vezes desmentindo outras. Por trás das questões que envolvem a pandemia existem também os interesses de grandes empresas farmacêuticas, de grandes laboratórios, dos capitalistas e dos governos. É importante o estudo técnico para evitar as informações erradas ou mesmo a reprodução das famosas “teorias da conspiração”, mas é necessário ter claramente a visão de que estamos diante de uma guerra biológica contra os povos do mundo, e que governos e capitalistas não colocam e não colocarão as vidas das pessoas comuns e dos condenados da terra acima do que chamam de interesses econômicos, ou seja, a manutenção das taxas de lucros dos capitalistas e os interesses do mercado financeiro.

Agora, passado o primeiro semestre do início da pandemia, ficou ainda mais provado que governos neoliberais ou controlados por genocidas de extrema-direita são incapazes de promover políticas para enfrentar a contaminação e que estão utilizando abertamente a Covid-19 como uma arma biológica de destruição em massa contra os povos, como é o caso dos centros atuais da pandemia, Estados Unidos e Brasil, governados respectivamente pelos neonazistas Donald Trump e Jair Bolsonaro.

Sambemos que estamos por nossa própria conta e que os gestores da direita e da falsa esquerda que governam nosso país, estados e cidades estão comprometidos com a agenda genocida do capital. A política abertamente criminosa contra o povo adotada pelo governo do miliciano Jair Bolsonaro e todo o seu governo neofascista não podem ser vencidos com acordos de cúpulas entre os partidos da ordem que sustentam essa falsa democracia, filha da escravidão e da ditadura, e apenas com a organização de base, a unidade popular, a ação direta e as lutas combativas radicalizadas nas ruas podemos abrir caminho para a vitória do povo sobre o Estado, o capital, a supremacia branca e o fascismo. Por isso, é necessário partir de uma política consequente e programática de proteção à vida de nosso povo, afirmando de forma intransigente nossa autonomia como organizações do povo e nossa independência de classe, defendendo que apenas um processo de ruptura revolucionária pode pôr fim às nossas desgraças coletivas e a esse sistema de exploração e opressão.

O trabalho de desinfecção comunitária é parte desse esforço de servir ao povo, para nos mantermos vivos e poder enfrentar as bestas que estão no poder, e que no caso do nosso Comitê de Solidariedade Popular se soma as outras iniciativas de apoio mútuo como a produção cooperativa de máscaras de proteção, a entrega dos kits de higiene e limpeza, os almoços coletivos, as rodas de conversa sobre saúde e organização popular e a doação de cestas básicas para setores vulneráveis do nosso povo nas periferias e favelas de Feira de Santana. A ação comunitária permanente, possibilitada pela coragem e abnegação de centenas de lutadores e lutadoras do povo em todo o país tem salvado muitas vidas, controlando a contaminação por Covid-19 em diversas comunidades do Brasil, assim como, a entrega e dedicação de grande parte dos profissionais de saúde, que enfrentam condições precárias de trabalho e colocam em risco cotidianamente suas vidas para salvar outras.

Uma política de solidariedade e arrecadação é necessária para montar as equipes de desinfecção diante das dificuldades que enfrentamos como organizações comunitárias e autônomas que se autofinanciam. É fundamental também preparar militantes tecnicamente e buscar apoio e parceiras com entidades, ter uma assessoria para elaboração e aprovação de projetos, fazer a comunicação social e a gestão financeira. É necessário utilizar todos os meios possíveis para conseguir recursos, mantendo sempre nossa autonomia política e rejeitando a tutela de partidos, empresas e outras instituições, assim como, o oportunismo eleitoral aflorado ainda mais em ano de eleições burguesas. Fazer o que os governos não fazem e tornar cada vez mais real nossa consígnia ‘Só o Povo Salva o Povo!’, ocupar o lugar vazio deixado pelo Estado na assistência social, mostrando na prática nossa capacidade enquanto povo organizado de construir uma nova sociedade, convencendo pelo discurso e arrastando pelo exemplo a maioria do nosso povo para o projeto popular e revolucionário, apresentando como horizonte uma ruptura anticapitalista que possa repartir o trabalho, a riqueza e o poder, organizando os serviços públicos e a produção através da autogestão.

Quanto as questões jurídicas e legais que envolvem a sanitização é importante conhecer todas as normas da Anvisa e seguir as recomendações dos órgãos de vigilância sanitária e epidemiológica do município, evitando qualquer tipo de criminalização ou descrédito do serviço comunitário, que deve ser tratado da forma mais profissional possível. Essas observações jurídicas e institucionais devem ser seguidas à risca caso a ação comunitária das equipes de desinfecção seja associada de forma paralela a uma prestadora de serviços particular de sanitização (como uma cooperativa de trabalho), forma pela qual as equipes podem conseguir recursos para remunerar militantes pelo trabalho e a ação comunitária pode ser autofinanciada.

Este Manual de Desinfecção Comunitária, com orientações básicas para sanitização nos territórios e proteção à vida nas periferias é uma contribuição do Comitê de Solidariedade Popular para as demais organizações populares e combativas, comitês de solidariedade e brigadas de apoio mútuo e que estará sempre em processo de revisão, atualização e aberta à sugestões.

Resistência é Vida! Venceremos!

Referências:

Apoie o comitê de solidariedade popular:

Apoie a nossa Equipe de Desinfecção Comunitária e demais iniciativas do Comitê de Solidariedade Popular – Covid-19 – Feira de Santana através da nossa Campanha Favela Viva doando qualquer valor em Banco do Brasil – Agência 4481-4 – Conta Corrente 8068-3. Contatos conosco podem ser feitos pelo whatsapp ou telegram em 75.98107-5552 ou por mensagem no facebook e instagram em @casadaresistencia.

[Dicas de Saúde] Como prevenir a COVID-19 com pouca água e pouco dinheiro! (Fórum de Mulheres de Pernambuco, Recife, PE)

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